sexta-feira, 21 de março de 2008
Radicado nos EUA, o cientista Miguel Nicolelis quer criar 11 centros de excelência no Brasil
O desafio é espalhar ciência por todo o Brasil
Ruth Helena Bellinghini escreve para 'O Estado de SP':
Muita gente jura que mais dia menos dia o neurocientista Miguel Angelo Nicolelis vai levar o Nobel. Péssima notícia para a torcida do Corinthians, porque, muito provavelmente, esse palmeirense 'doente' vai dar um jeito de mencionar o time no discurso de agradecimento.
'O coração alviverde não agüentaria deixar de mencionar as origens. Mas é difícil demais para um 'cucaracha' chegar lá', diz, modesto, o pesquisador de 43 anos, professor titular de Neurobiologia e Engenharia Biomédica, e co-diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, Carolina do Norte.
Nicolelis é notícia já há alguns anos. Ele e sua equipe desenvolveram um sistema que converte impulsos cerebrais em comandos matemáticos que podem ser interpretados por computador. No ano passado, duas macacas reso, com implantes cerebrais conectados a um computador, aprenderam a mover um braço robótico.
'A macaquinha, sem se mexer, aprende a usar só o cérebro para controlar o robô e o cérebro dela se modifica para incorporar o robô como se fosse parte de seu corpo', conta. O próximo passo, que pode ser dado em breve, é a autorização para que sua equipe realize a experiência com humanos.
As implicações são enormes. Dentro de 10 ou 15 anos, por exemplo, o sistema poderá ser usado por pessoas com paralisia para acionar braços robóticos ou mesmo uma cadeira de rodas. Mais que isso, o trabalho comprova que a plasticidade do cérebro vai muito além do que se imaginava.
O cérebro se adapta para usar determinadas ferramentas, de tal forma que elas se tornam uma extensão de nossos corpos.
Adaptação - 'Você compra um carro novinho e, por algum tempo, não se sente à vontade ao volante, mas após alguns dias a plasticidade cerebral faz com que ele pareça parte de você', compara o pesquisador. Vale o mesmo raciocínio para a armadura do cavaleiro medieval, para o pincel do pintor, para a bola nos pés do jogador de futebol. 'Por causa dessas pesquisas, meu laboratório cresceu muito - cresceu não, explodiu! - nos últimos cinco anos', diz.
Reconhecido internacionalmente, era de esperar que esse paulistano do Bexiga, criado à sombra da Igreja de Nossa Senhora Achiropita, se contentasse com a vida de pesquisador à frente de um laboratório de US$ 30 milhões.
Longe disso. Nicolelis tem na ponta da língua projetos para a criação de 11 institutos de pesquisa de ponta no Brasil - começando pelo lançado no início do mês, o de Neurociências, em Natal, no Rio Grande do Norte.
E ele não é do tipo que fica só nas palavras. Organizou o congresso internacional da área - 'Até vendi camisetas e virei motorista, buscando e levando gente para o aeroporto' - e enfrentou nos últimos dias uma maratona pelos gabinetes de Brasília.
Conversou com os ministros da C&T, Eduardo Campos, e Integração Nacional, Ciro Gomes; tomou café da manhã com a bancada nordestina do Congresso e, claro, conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fã declarado de sua proposta de criar centros de excelência no Norte e no Nordeste.
Por causa da indicação de Nicolelis, Lula vai receber o título de doutor honoris causa da Duke University ainda este ano.
Pedestal - 'A gente, em SP, tem diante dos olhos o resultado do investimento em ciência. Basta andar pelo interior e ver aqueles canaviais e ver a Embraer, fruto do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA).
Mas no Norte e no Nordeste não é assim, ciência é uma coisa distante da população e isso tem de mudar', diz. 'Não adianta sentar no pedestal e dizer que sou neurocientista, que trabalho com o cérebro.
Precisa explicar para a sociedade por que esse trabalho é fundamental, por que vale a pena investir o dinheiro do contribuinte nisso.'
Com o instituto - ou melhor, os institutos -, Nicolelis pretende ficar com um pé aqui e outro nos EUA. 'Bom, vou precisar de um avião, né? Eu não vou tocar o instituto, só vou fazer. É como o general Shermann dizia: If nominated, I'm not going to run. If elected, I'm not going to serve' (Se for indicado, não concorro. Se for eleito, não tomo posse)', compara.
'Ponho a coisa para funcionar, depois começo a batalhar pelo próximo, que pode ser de biologia marinha, doenças tropicais, de fontes alternativas de energia, farmacologia, botânica, pode ser em Teresina, em Macapá, em Rio Branco', afirma.
E dinheiro para tudo isso? O modelo é do Instituto de Neurociências de Natal, que vai funcionar em rede com os demais centros de pesquisa do país e do exterior. O terreno, em Macaíba, foi doado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O governo do Estado se encarrega da infra-estrutura - estrada, água, luz. O federal entra com os recursos para construção. 'O resto vem de fora', promete Nicolelis.
É coisa rara por aqui, mas nos EUA fund raising - captação de recursos - faz parte do dia-a-dia de pesquisador. Não se trata apenas de pedir financiamento, mas ir atrás de fundações, de instituições e até mesmo de milionários dispostos a desembolsar alguns milhões para financiar pesquisas e que batizam e sustentam laboratórios, bibliotecas e grandes centros de estudo.
Como o Instituto de Neurociências tem um braço social - um centro de saúde mental e uma escola, que vai utilizar novos recursos educacionais, para atender crianças e jovens da área até os 17 anos -, espera que brasileiros com recursos se sensibilizem com a proposta.
São 16 anos nos EUA, mas Nicolelis não se acostuma com o frio, com a falta de futebol, com a comida. 'É bom vir de fora, porque a gente não vê esse dia-a-dia difícil, o massacre contínuo da nossa paciência, com violência, com notícias ruins. A gente pode trazer o que aprendeu por lá, mas traz também a saudade, o entusiasmo, essa paixão para e pelo Brasil', diz.
Saudades da família, de bauru, Sonho de Valsa, queijo de Minas com goiabada, guaraná, Diamante Negro e pão de queijo, a lista que chama de kit básico do exilado voluntário. E esfiha, claro.
'Quando eu estudava no Bandeirantes, no Paraíso, minha mãe me dava dinheiro contado para o lanche, um refrigerante e um sanduíche de esfiha (pão sírio com uma ou duas esfihas abertas dentro) da Jaber. Quando vou a SP, é minha primeira parada', conta rindo.
Computação - Do Bandeirantes, Miguel Nicolelis foi para a Faculdade de Medicina da USP, mas demorou para o cérebro se tornar o centro de suas atenções.
'Primeiro eu me interessei por computação e medicina e, mais tarde, com meu amigo Koichi Sameshima criamos a primeira disciplina de informática médica da América Latina, na USP', lembra.
Nicolelis passou a fazer pesquisa no 3.º ano da faculdade e o cérebro entrou na sua vida lá pelo 5.º. Fez doutorado em fisiologia no Instituto de Ciências Biológicas da USP, virou professor da Medicina e, em 1988, foi fazer pós-doutorado na Filadélfia. Não voltou mais.
'Lá tinha um sujeito, o John Chaplin, que teve a mesma idéia que eu, registrar a atividade de centenas de células neurais ao mesmo tempo em animais que faziam coisas interessantes, como ratos, e o movimento de suas vibrissas (bigodes), que funcionam como dedos e servem para estudar a percepção tátil', explica. A técnica deu certo e daí veio o convite para a Duke University, em 1994.
Dinâmica - Chaplin e Nicolelis ajudaram a mudar o enfoque da neurofisiologia. 'Em vez de olhar uma célula de cada vez, analisamos grandes grupos que nos permitem chegar mais perto da dinâmica de funcionamento dessa estrutura em termos operacionais, o como funciona.'
E, se o assunto é cérebro, Nicolelis realmente se empolga. 'Me fascina o fato de que, talvez mais que o código genético, o cérebro nos diz o que cada um de nós realmente é, tanto o que temos em comum, como nossas diferenças. Esses circuitos e sua dinâmica explicam por que escrevemos, por que lembramos das coisas, o que sentimos, as tristezas, os nossos medos, nossos amores. Tudo isso está na atividade dos diferentes circuitos cerebrais.'
A redundância desse sistema é outro aspecto fascinante: o cérebro tem células para assumir o papel de outras células. 'A gente vai perdendo neurônios desde os 18 anos e se cada um tivesse uma função única, nessa idade começaríamos a ter muitos problemas', afirma.
Na verdade, as mensagens são amplamente distribuídas no cérebro e cada célula tem potencial para exercer várias funções. 'Em computação isso se chama multiprocessamento. É uma plasticidade dentro de certos limites, que pode ocorrer em várias regiões do sistema ao mesmo tempo. É uma coisa muito bonita', diz o pesquisador, que está terminando de escrever um livro de ficção e também é pintor autodidata.
Desafios - Natal, diz ele, pode ser o ponto de partida para responder muitas perguntas. 'Queremos entender o que é consciência, por que Alzheimer é o que é, por que Parkinson é assim. Nenhum laboratório do mundo, sozinho, vai conseguir, porque essas respostas exigem variedade de idéias.'
Nicolelis diz que seu projeto é uma bandeira, 'não daquelas de matar índio e roubar ouro, mas uma bandeira do bem'. Já tem até um bordão para seu projeto, 'precisamos emular Brasília', que considera o grande épico brasileiro. 'Precisamos de Brasílias científicas', afirma.
Casado, pai de três filhos - de 16, 13 e 10 anos -, o pesquisador não esconde o orgulho do mais velho, Pedro Ivo, que quer voltar para o Brasil. É ótimo aluno, tem futuro garantido lá, vai ser cortejado por todas as Universidades americanas, conta o pai-coruja.
'Ele quer vir sonhar aqui, porque lá o sonho acabou. A fronteira é aqui, os desafios estão aqui. Este é um país por construir, tudo está por fazer. Que desafio pode ser maior?'
Palmeirense fanático, Nicolelis vê todos os jogos do clube na TV a cabo, num ritual supersticioso
Torcedor que é torcedor literalmente veste a camisa. Miguel Nicolelis não só usou a da Seleção Brasileira para fazer sua palestra no Congresso Internacional de Neurociência, em Natal, como desfilou com shorts do Palmeiras.
Não satisfeito, ilustra sua conferência com uma foto do gol de Ronaldinho, na final do penta, no Japão, em 2002. E, para dar exemplos de como o cérebro se adapta para usar ferramentas como se fossem extensões do corpo humano, mais futebol.
'É como dizia o Garrincha, tem de dormir com a bola. É isso que acontece com gênios como Ademir da Guia, Pelé, Ronaldinho. Para o cérebro deles, a bola é uma extensão da representação do pé. O cérebro aprendeu qual a dinâmica daquela bola', compara.
'Os gringos não fazem isso porque só jogam em treino, mas a gente vive com a bola desde pequeno e a gente sabe.' Claro, não é só cérebro de brasileiro que funciona assim. Nos EUA, o exemplo é o taco de beisebol, que funciona como extensão da mão do jogador.
'Quando eles rebatem a bola, dizem que sentem se a bola vai vir redonda ou quadrada, que sentem a vibração na ponta do bastão.'
O grande choque na vida de Nicolelis foi a mudança para os EUA - que era para ser por pouco tempo -, a distância daquela 'grande instituição que são os avós', o frio, mas, sobretudo, a falta de futebol.
'Sei tudo da história do Palmeiras, da fundação até 1989, daí tem um buraco negro de quatro anos, porque ainda não havia Internet e, depois de algumas semanas, minha mãe se cansou de mandar os jornais com notícias do Palmeiras para mim', conta.
A página do seu laboratório na Duke University também escancara a paixão pelo país do futebol. Bandeirinha brasileira, lista de músicas - que inclui Garota de Ipanema, Corcovado e Eu e Você - e ali do lado, soberana, a bola.
E muitas histórias para contar. Como a do Japão e do quimono verde-e-branco.
'Eu estava em Tóquio, no meio de Ginza, com todos aqueles luminosos tipo Blade Runner, quando me lembrei de que tinha jogo do Palmeiras. Procurei um restaurante brasileiro e, quando estava chegando lá, saindo do metrô, vi uma mulher vendendo quimonos verde-e-brancos. Pensei: 'é um sinal' e comprei um', recorda.
Devidamente paramentado, entrou no restaurante e viu o jogo, que o time ganhou. Resultado: 'Só assisto a jogo do Palmeiras com o quimono verde-e-branco, lindo, com a faixa verde-esmeralda.'
A salvação da lavoura do torcedor exilado veio há quatro anos, quando a Globo Internacional entrou para o pacote da americana DishNetwork, um sinal experimental só para Nova York.
'A atendente me explicou que não tinha nada para baixo de Nova York e eu vivo na Carolina do Norte. Insisti, disse que queria para amanhã porque tinha jogo do Palmeiras. E a moça: 'o quê???', sem entender', diz. Explicação daqui, um jeitinho dali e Nicolelis foi o primeiro assinante do serviço abaixo de Nova York.
'Era Palmeiras e Vasco na final do Rio-SP e nós ganhamos por 4 a 0 no Morumbi. Trouxe a vizinhança inteira para ver e ninguém entendeu nada, mas, com o tempo, eles aprendem.'
(O Estado de SP, 21/3)
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
A destreza da mente: quando a ciência encontra a mágica
27/08/2007
George Johnson
O motivo para ele ter me escolhido na platéia, insistiu Apollo Robbins, era o fato de parecer bastante envolvido, acenando com a cabeça e fazendo contato com os olhos enquanto ele e outros mágicos explicavam os truques do ofício. Eu acreditei nele quando me disse posteriormente, durante um jantar no Venetian, que não tinha percebido o crachá me identificando como escritor de ciência. Mas até aí todos acreditam no Apollo - enquanto ele remove habilmente sua carteira e
chaves do carro e solta seu relógio.
Era uma noite de domingo na Las Vegas Strip, onde há pouco tempo a Associação para o Estudo Científico da Consciência realizou seu encontro anual no Imperial Palace Hotel. O último encontro da organização foi nos arredores sérios de Oxford, mas Las Vegas - a cidade das ilusões, onde a Estátua da Liberdade olha além de Camelot para a Esfinge - revelou ser o local perfeito. Após dois dias de apresentações por cientistas e filósofos especulando como a mente constrói e desconstrói a realidade, nós estávamos ouvindo profissionais: James (O Fantástico) Randi, Johnny Thompson (O Grande Tomsoni), Mac King e Teller - mágicos que intuitivamente dominaram algumas das lições que estão sendo aprendidas em laboratório sobre os limites da cognição e atenção.
"Não era apenas um grupo de artistas de qualidade mundial", disse Susana Martinez-Conde, uma cientista do Instituto Neurológico Barrow, em Phoenix, que estuda ilusões ópticas e o que dizem sobre o cérebro. "Eles foram escolhidos a dedo devido ao interesse específico deles nos
princípios cognitivos por trás da mágica".
Ela e Stephen Macknik, outro pesquisador do Barrow, organizaram o simpósio, chamado apropriadamente de Mágica da Consciência.
Apollo, com seus olhos e mão, desviou minha atenção como uma luminária estilo "gooseneck", de forma que estava sempre apontada na direção errada. Quando ele parecia estar buscando algo no meu bolso esquerdo, ele estava retirando algo do direito. No final da apresentação, a platéia aplaudiu enquanto ele me entregava minha caneta, alguns recibos amassados e notas de dólar, assim como meu gravador de áudio digital, que estava em funcionamento o tempo todo. Eu não percebi que meu relógio tinha sido removido até o momento em que ele o retirou de seu próprio pulso.
"Ele é incrível", me disse Teller posteriormente enquanto partia às pressas para sua apresentação noturna ao lado de Penn no Rio.
Um tema recorrente na psicologia experimental é a estreiteza da percepção: quão pouco do alarido sensorial chega até a consciência. Mais cedo, antes do show de mágica, um neurocientista demonstrou um fenômeno chamado cegueira por desatenção com um vídeo feito pelo Laboratório de Cognição Visual da Universidade de Illinois.
No vídeo, seis homens e mulheres - metade deles de camisa branca e metade com camisa preta - estão trocando passes com duas bolas de basquete. É pedido aos espectadores que contem quantas vezes os membros de uma equipe, digamos a branca, conseguiram completar um passe, mantendo a bola fora do alcance da outra equipe. Eu segui fielmente as instruções e fiquei surpreso quando a cerca de 15 segundos de jogo, risadas começaram a surgir na platéia. Apenas quando assisti uma segunda vez eu percebi a pessoa com roupa de gorila vindo da esquerda da cena. (O vídeo está disponível online em viscog.beckman.uiuc.edu/grafs/
Apesar de sigilosos sobre informações específicas, os mágicos estavam tão interessados quanto os cientistas na discussão das ilusões cognitivas que se passam por mágica: disfarçar uma ação com outra, subentender informação que não está presente, explorar a forma como o cérebro preenche as lacunas - fazendo suposições, como colocou O Fantástico Randi, e as confundindo com fatos.
Soando mais como um professor do que um humorista e mágico, Teller descreveu como um bom mágico explora a compulsão humana de encontrar padrões, as impondo quando não estão presentes.
Na vida real, se você vê algo feito repetidas vezes, você o estuda e gradualmente pega um padrão", ele disse enquanto caminhava no palco segurando um balde de metal em sua mão esquerda. "Se você faz isto com um mágico, às vezes é um grande erro".
Tirando uma moeda atrás da outra do ar, ele as jogava, uma após a outra, tunc, tunc, tunc, dentro do balde. Assim que a platéia começava a perceber - de alguma forma ele estava escondendo as moedas entre os dedos - ele exibia sua palma vazia e, tunc, jogava outra moeda dentro do balde e então pegava outra em meio ao cabelo grisalho de um cavalheiro. Para o clímax do truque, Teller habilmente removeu os óculos de um espectador, os inclinou e, tunc, tunc, mais duas moedas caíram.
Ao realizar o truque uma segunda vez, anotando cada passo, nós vimos como fomos levados a casar indevidamente causa e efeito, a formar uma falsa hipótese atrás da outra. Às vezes as moedas vinham de sua mão direita, às vezes da esquerda, escondidas sob os dedos que seguravam o balde.
Ele nos deixou com a definição de mágica: "A ligação teatral de uma causa e um efeito que não tem base na realidade física, mas que - em nossos corações - deveria".
Em seu discurso de abertura, Michael Gazzaniga, o presidente da associação de consciência, descreveu outra forma de prestidigitação - uma experiência de realidade virtual na qual colocou um par de óculos eletrônicos que projetavam a ilusão de um buraco profundo no que ele sabia ser um chão de concreto sólido. A adrenalina fez seu coração bater mais rápido e seus músculos ficarem tensos, um lembrete de que mesmo sem óculos o cérebro forma um mundo a partir de qualquer coisa que puder.
"De certa forma nossa realidade é virtual", disse Gazzaniga. "Pense em voar em um avião. Você está lá em cima em um tubo de alumínio, a 9 mil metros de altura, a mais de 900 km/h, e acha que está tudo bem".
Gazzaniga é famoso por seu trabalho com pacientes com cérebro dividido, cujos hemisférios esquerdo e direito foram desconectados como um tratamento de último recurso para epilepsia severa. Há experimentos que levaram à noção, simplificada em excesso pela cultura popular, de que o lado esquerdo do cérebro é predominantemente analítico enquanto o lado direito é intuitivo e despreocupado.
O lado esquerdo do cérebro, como colocou Gazzaniga, é o confabulador, constantemente maquinando histórias. Mas o meu ficou momentaneamente atônito quando, após sua palestra, eu passei por uma porta dentro do Venetian Resort Hotel Casino e entrei em uma simulação em ar
condicionado do Grande Canal. Meus olhos foram atraídos para o alto para a surpreendente ilusão de um céu "trompe l'oeil" e o que julguei serem corvos voando sobre minha cabeça. Olhando mais atentamente, meu cérebro descartou a teoria e vi que as negras curvas eram as bordas de discos - tachinhas gigantes prendendo o céu. Posteriormente me disseram que eram sprinklers automáticos, para o caso das nuvens se incendiarem.
"É o 'Show de Truman'", disse Robert Van Gulick, um filósofo da Universidade de Syracuse, assim que me juntei a ele em uma mesa com vista da versão da Praça de São Marcos. Uma brisa marítima entrava pela janela, as nuvens refletiam o sol do fim de tarde (e ainda permaneciam luminosas, por volta das 22h30, quando voltei para meu hotel). Como poderíamos nos certificar de que o mundo à minha volta também não é uma simulação? Ou que eu não sou apenas um cérebro em um tanque no laboratório de algum cientista maluco?
Van Gulick veio à conferência para falar sobre qualia, o senso subjetivo, cru, que temos de cores, sons, sabores, toques e cheiros. O crocante do crostini, o deslizar do penne alla vodka - uma pergunta que preocupa os filósofos é onde estas experiências pessoais se encaixam dentro de uma teoria puramente física da mente.
Como os físicos, os filósofos lidam com estes quebra-cabeças realizando experiências de pensamento. Em um recente trabalho, Michael P. Lynch, um filósofo da Universidade de Connecticut, concebeu a idéia de um "batedor de carteiras fenomenal", uma criatura imaginária, como Apollo o ladrão, que distrai sua atenção enquanto remove seu qualia, transformando você no que é conhecido no meio como um zumbi filosófico. Você pode pegar uma bola, assoviar uma melodia, parar em um sinal vermelho - agir exatamente como uma pessoa sem qualquer senso
de como é estar vivo. Se zumbis são logicamente possíveis, insistem alguns filósofos, então seres conscientes devem ser dotados de uma essência inefável que não pode ser reduzida a circuitos biológicos.
A fantasia de Lynch era um artifício para minar o argumento do zumbi. Mas se zumbis existem, provavelmente é em Las Vegas. Certa noite enquanto caminhava pelo salão do cassino do Imperial Palace - uma cacofonia de sinos badalando e arpejos eletrônicos - era fácil imaginar que os hominídeos parados em frente aos caça-níqueis eram apenas extensões das máquinas.
"Condicionamento intermitente", sugeriu Irene Pepperberg, uma professora associada adjunta da Universidade Brandeis que estuda a inteligência animal. Se você quiser treinar um rato de laboratório a puxar uma alavanca para receber comida, o reflexo será gravado de
forma mais profunda se a criatura for recompensada com certa regularidade, mas não sempre.
Pepperberg lançou um elemento imprevisível nos estudos da consciência com seus experimentos controversos com papagaios africanos. Com o cérebro "do tamanho de uma noz", como ela colocou, as aves exibem o que parecer ser o potencial cognitivo de uma criança pequena. Seu papagaio mais conhecido, Alex, pode olhar para uma bandeja de objetos e pegar aquele que tem quatro cantos e é azul. Ele também cunhou sua própria palavra para amêndoa -"cork nut".
Com aparições no canal "PBS" e uma ponta em um romance de Margaret Atwood, "Oryx and Crake", Alex entrou para o imaginário popular, enquanto Pepperberg luta para encontrar uma posição acadêmica segura. Os críticos não resistem a comparar Alex a "Clever Hans", o famoso
cavalo cuja habilidade aritmética foi exposta como sendo respostas aprendidas que seguiam as deixas sutis de seu treinador. Pepperberg disse que controla tal possibilidade em seus experimentos e acredita que seus papagaios estão pensando e se expressando por conta própria
com palavras.
Certa noite andando pela Strip eu avistei Daniel Dennett, o filósofo da Universidade Tufts, andando apressadamente na calçada do outro lado da rua em frente ao Mirage, que possui sua própria floresta tropical e vulcão. As marquises estavam piscando e os aparelhos de ar condicionado rugindo - Las Vegas deixando sua pegada de carbono com botinas nas areias de Nevada. Eu lhe perguntei se estava apreciando o qualia. "Você realmente sabe como ferir um sujeito", ele respondeu.
Por anos Dennett argumentou que o qualia, na forma visionária que foi definida na filosofia, é ilusório. Em seu livro, "Consciousness Explained" (consciência explicada), ele apresentou um experimento de pensamento envolvendo uma máquina de provar vinho. Ponha uma amostra em um funil e uma série de sensores eletrônicos analisariam o conteúdo químico, consultaria um banco de dados e finalmente digitaria sua conclusão: "Um Pinot vistoso e suave, apesar de carecer de vigor".
Se o hardware e o software pudessem ser sofisticados o bastante, não haveria diferença funcional, sugeriu Dennett, entre o enófilo humano e a máquina. Logo, dentro do circuito se encontraria o qualia inefável?
Sentados em um bar no Imperial Palace, nós conversamos sobre um mistério diferente em que estava ponderando: o papel que as palavras exercem dentro do cérebro. Aprenda um pouco do linguajar do vinho e você repentinamente está equipado com as ancoras para definir suas fugazes impressões gustativas. As palavras, ele sugeriu, "são como cães pastores guiando as idéias".
Enquanto bebericava, ele experimentou outra metáfora, envolvendo uma técnica de garimpar ouro sobre a qual aprendeu na Nova Zelândia. Ouro e chumbo apresentam densidade semelhante. Se você salpicar o material em suspensão com chumbo grosso para caça e rodar a peneira, os grãos escuros rastrearão as esquivas partículas de ouro.
Com um saco de artifícios acumulados ao longo de eras, o cérebro realiza a prestidigitação suprema: o senso subjetivo do eu. "Os mágicos de palco sabem que uma coleção de truques baratos costuma ser suficiente para produzir 'mágica'", escreveu Dennett, "assim como a Mãe Natureza, a suprema criadora de artifícios".
No final do show de mágico no qual fui depenado por Apollo, o Fantástico Randi chamou Dennett e outro voluntário pra ajudar em seu truque final. Enquanto Randi se sentava em uma cadeira, os dois homens ataram fortemente seus braços às suas coxas com uma corda.
"Daniel, você poderia tirar sua jaqueta para mim por um instante?" pediu o mágico. "Agora a coloque em frente às minhas mãos".
"Um pouco mais alto", disse Randi.
Sem perder um segundo, ele agarrou o colarinho e a puxou na direção do seu queixo. A platéia vibrou. Ou ele conseguiu escapar das cordas em uma questão de segundos ou suas mãos estavam livres o tempo todo.
"Permita às pessoas fazerem suposições e elas partirão absolutamente convencidas de que a suposição estava correta e que representa um fato", disse Randi. "Mas não necessariamente".
Tradução: George El Khouri Andolfato
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Cérebro determinado: o livre-arbítrio é uma ilusão?
Pare já de ler essa coluna. Não conseguiu, não é mesmo? E por que não? Esse é um dos muitos exemplos empregados pela neurociência para mostrar que, pelo menos em certas ocasiões, não temos o menor poder de decisão, já estaria tudo programado em nosso cérebro. Mas será mesmo verdade, estaríamos pré-determinados desde o nascimento? Conforme prometido anteriormente, escrevo hoje sobre algumas reflexões relacionadas ao livre-arbítrio e a neurociência.
Quando criança pensava em desafiar a morte para um duelo, caso vitorioso teria a imortalidade. Obviamente, não era o único que tinha essas idéias. Na famosa cena do filme "Sétimo Selo" (do já saudoso Ingmar Bergman), o cavaleiro Antonius desafia a Morte para uma partida de xadrez, tentando vencê-la através do conhecimento humano. Antonius se recusa a morrer sem ter compreendido o sentido da vida. Em jogo, o adiamento de sua sentença. Mas da Morte ninguém escapa...
A morte limita a questão do livre-arbítrio uma vez que estamos todos predestinados a morrer. Então só podemos ser realmente livres no período entre o nascimento e a morte. A coisa fica ainda mais restrita quando nos damos conta que somos um sistema físico-químico, funcionando de acordo com as leis do universo. E nossos comportamentos não parecem ser exceção.
Na década de 70, ensaios experimentais conduzidos pelo fisiologista Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia em São Francisco, mostraram que impulsos nervosos podem ser previsíveis. Os experimentos demonstraram que os sinais elétricos obtidos do cérebro de voluntários podiam ser usados para prever, por cerca de meio segundo, a decisão entre duas ações motoras: apertar um botão ou estalar os dedos. Essa descoberta surpreendente demonstra que a ordem da atividade cerebral é contra-intuitiva: primeiro a escolha do movimento e só depois a consciência da decisão, ao invés do oposto. (Maiores detalhes em: "Mind Time: The Temporal Factor in Consciousness, Perspectives in Cognitive Neuroscience", Benjamim Libet, Harvard University Press 2004).
Esses resultados foram reproduzidos diversas vezes ao longo dos anos, inclusive com o uso de moderníssimos scanners de ressonância magnética com alta-resolução e, consistentemente, mostram que o cérebro consciente está sempre tentando alcançar as ações disparadas pelo inconsciente. "Não sabia que te amava até que ouvi minha própria voz dizendo isso" confessou o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell para sua amante Ottoline Morrell durante um de seus diálogos noturnos. Assim como Russell, somos facilmente enganados quando a questão é assumir responsabilidade pelas nossas próprias ações.
A realidade está sempre correndo meio segundo à frente da nossa consciência da própria realidade. O "agora" já passou há meio segundo atrás e não foi notado pelo nosso sistema sensorial. Pior, nunca alcançaremos a realidade de forma consciente com o cérebro no estado atual. Não seria nem necessário comentar as implicações dessa descoberta, mas imagine se pudéssemos analisar a mente de um suposto assassino meio segundo antes dele cometer um crime. Seria ele culpado apenas pela intenção? Acho que já vi isso em algum filme...
Na cultura ocidental estamos constantemente insatisfeitos, queremos sempre mudar alguma coisa: perder peso, viajar mais, ler outros livros, etc. Curiosamente, esse sentimento vem da certeza de que somos livres para mudar o rumo de nossas vidas ou mesmo vencer dificuldades impostas pelos revezes da vida. Por que achamos que somos livres para decidir qualquer coisa? Talvez o livre-arbítrio sobreviva apenas como percepção, mas não como uma vontade real. Nós temos a experiência da escolha a todo momento (o que comer, o que vestir, com quem conversar) o que nos traz a ilusão da liberdade.
O fim do livre-arbítrio, ou sua redefinição como uma ilusão conveniente, pode causar uma revolução na nossa cultura moral e senso de responsabilidade legal. Afinal, isso significa que nós somos tão responsáveis pelas nossas ações quanto uma pedra ou um animal. No entanto, acredito que a grande maioria jamais iria aceitar isso, afinal parece que fomos programados para acreditar que somos livres.
Desses argumentos, desabrocha uma nova idéia na neurociência: o cérebro consciente está atrasado porque estaria fadado a se ocupar com milhares de atividades mundanas diariamente: vestir-se, tomar café, dirigir, ir ao banco, etc. Essa escravidão só será relaxada durante o sono ou em estados de "transe". No transe, pensar demais atrapalha. Essa é a base da meditação de certos monges budistas e uma forma excepcional de executar atividades que requeiram muita concentração, usada por atletas profissionais ou mesmo por você.
Tente dirigir pensando em todas suas ações - como se fosse a primeira vez. Além de ser extremamente complicado, você irá notar que tende facilmente a entrar no modo automático. Para continuar consciente, você tem que reprimir o inconsciente. Esse poder do veto limita o uso do livre-arbítrio humano, mas é suficiente para a maior parte das questões éticas humanas, afinal, a grande maioria dos códigos morais está baseado na repressão do cérebro questionativo: não matarás, não roubarás, e assim vai.
Difícil de aceitar que nosso cérebro altamente evoluído é facilmente ludibriado. Já estamos limitados demais pelo nascimento e morte, além das milhares atividades cotidianas que dominam nosso consciente. O que sobra do livre-arbítrio então? Na minha visão, parte desse determinismo foi (e ainda é) essencial para nossa sobrevivência: não dá pra pensar muito no momento em que você está em perigo, você age sem hesitar, inconsciente. Da mesma forma que um corredor profissional de 100 metros rasos, só tem consciência do apito inicial do juiz quando já está quase no meio da corrida, ou seja, cerca de meio segundo depois!
De fato, muitos dos experimentos inspirados em Libet foram baseados no sistema motor. Mas o que dizer de algo como a estética de uma obra de arte? Será que os impulsos elétricos seriam capazes de prever se gostaremos ou não de uma determinada pintura? Quando expostos a um ambiente novo, nossos sistemas sensoriais não estão mais limitados pelas atividades do dia-a-dia e surge a chance do momento criativo. Seu cérebro tem a chance de formar conexões novas, jamais pré-determinadas. Esse sim pode ser considerado um verdadeiro momento de liberdade, jamais vivido por um animal ou máquina. Assim, quanto maior o número de novas experiências a que você se expuser, mais livre será seu cérebro.
Outra forma de livre-arbítrio seria a própria plasticidade neuronal. Por exemplo, pessoas que nascem cegas conseguem usar grande parte do pré-destinado córtex visual para áreas não-relacionadas, como para o olfato, por exemplo. Mesmo pessoas com derrame e que perderam o movimento de algum membro, conseguem recuperar parte da atividade com treinamento específico. Mas essa reorganização cerebral depende exclusivamente da sua vontade de mudar. Reorganizando suas conexões nervosas, você muda quem você é, vencendo o determinismo original.
Assim, o determinismo e o livre-arbítrio podem sim coexistir em nosso cérebro. Usamos um ou outro dependendo da ocasião e do momento da evolução humana (seria legal descobrir que no futuro, ações cotidianas seriam automatizadas, libertando nosso cérebro para o processo criativo). Acho que isso deve incomodar muitos cientistas e filósofos, mas nada me convenceu do contrário. E como testar essa hipótese?
Todo sistema físico investigado até hoje pode ser classificado como determinístico ou aleatório, mas nunca as duas coisas. Vale lembrar que, paradoxalmente, teorias baseadas em mecânica quântica descrevem movimentos aleatórios de partículas microscópicas como base fundamental do que chamamos de realidade. Mas e o cérebro humano? Das duas uma: ou simplesmente não sabemos quais as equações para explicar alguns dos fenômenos neurais ou existe algo fundamentalmente novo que ocorre em sistemas ultracomplexos. Ainda não temos a resposta se o cérebro é um complicado conjunto de engrenagens, se é algo totalmente independente da física atual ou mesmo um misto dos dois. Desvendar esse mistério trará a resposta do quanto livre nós realmente somos.
Uma forma experimental de analisar o problema do livre-arbítrio consiste na manipulação de modelos matemáticos que simulem a atividade cerebral. Ou seja, será necessária a criação de um cérebro artificial. Diversos projetos já existem com essa finalidade, mas destaco um deles. O Blue Brain Project, um mega projeto resultante da colaboração entre a EPFL (Ecole Polytechnique Federale de Lausanne) e a IBM. A idéia é utilizar sistemas 3D que simulem pequenos blocos do córtex do cérebro de mamíferos. O projeto é ambicioso e vai levar um certo tempo até vermos resultados, mas é um bom começo.
Pode-se argumentar que esse tipo de estratégia nunca represente o que realmente acontece com o cérebro humano. Afinal, de acordo com princípios filosóficos básicos, nenhum sistema contém a completa representação de si mesmo e, dessa forma, você jamais conseguirá criar algo tão complexo quanto você mesmo. No entanto, pode-se deixar esse sistema complexo evoluir. O cérebro individual não é estático e evolui de várias formas: durante o desenvolvimento, usando retroelementos genéticos transponíveis de forma aleatória para a regulação da expressão gênica, ou mesmo no indivíduo adulto, através da inclusão de novos neurônios e da plasticidade sináptica -- todos podendo ser regulados pelo ambiente. Todo modelo que não incorporar essas variáveis estará fadado ao fracasso.
Enfim, mesmo com minha mente sempre incomodada e obcecada por liberdade, prefiro ter consciência que sou, pelo menos em parte, uma máquina determinista do que viver na ilusão de um puro livre-arbítrio existencial.
Alysson Muotri
terça-feira, 26 de junho de 2007
Ciência da alma? O "Penso, logo existo" perde força
Cornelia Dean
Em 1950, em uma carta aos bispos, o papa Pio 12 abordou a questão da evolução. "A Igreja Católica Romana não faz necessariamente objeções ao estudo da evolução, contanto que este diga respeito aos atributos físicos", escreveu o papa na encíclica Humani Generis. Mas ele acrescentou: "A fé católica nos obriga a afirmar que as almas são imediatamente criadas por Deus".
O papa João Paulo 2° afirmou praticamente a mesma coisa em 1996, em uma mensagem à Academia Pontifícia de Ciências, um grupo de assessoria do Vaticano. Embora tenha observado que nos anos anteriores a evolução se tornou "mais do que uma hipótese", ele acrescentou que a idéia de a mente emergir de um mero fenômeno físico era "incompatível com a verdade sobre o homem".
Mas à medida que os biólogos evolucionários e os cientistas especializados nas neurociências cognitivas perscrutam o cérebro de forma cada vez mais profunda, eles descobrem mais e mais genes, estruturas cerebrais e outros fatores físicos relacionados a sentimentos como empatia, desgosto e alegria. Ou seja, eles estão descobrindo as bases físicas para os sentimentos dos quais emerge a sensação de moral - não só em pessoas, mas também em animais.
O resultado talvez seja o desafio mais poderoso à visão de mundo resumida por Descartes, o filósofo do século 17 que dividiu as criaturas do mundo entre a humanidade e o resto. Conforme os biólogos vão apresentando evidências de que os animais são capazes de exibir emoção e padrões de cognição que outrora se acreditava serem estritamente humanos, o enunciado de Descartes, "Penso, logo existo", perde a sua força.
Para muitos cientistas, a descoberta de que a reflexão moral é um resultado de atributos físicos que evoluem como tudo mais é apenas mais uma evidência contra a existência da alma, ou de um Deus que dota os humanos de almas. Para muitos crentes, especialmente nos Estados Unidos, essas descobertas demonstram o erro, ou até mesmo a perversidade, que é encarar o mundo em termos estritamente materiais. E elas provocam nos teólogos um ímpeto crescente para reconciliar a existência da alma com a crescente evidência de que os humanos não são, nem física nem mentalmente, uma classe em si.
A idéia de que as mentes humanas são o produto da evolução é "um fato incontestável", afirma o periódico "Nature" na edição deste mês, em um editorial a respeito das novas descobertas sobre a base física do pensamento moral. Um cabeçalho no editorial vai direto ao assunto: "Com todo o respeito às sensibilidades das pessoas religiosas, a idéia de que o homem foi criado à imagem de Deus pode, com toda certeza, ser descartada".
Ou, conforme V.S. Ramachandran, pesquisador do cérebro e professor da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmou em uma entrevista, pode haver alma no sentido do "espírito universal do cosmo", mas aquele conceito de alma do qual freqüentemente se fala, "um espírito imaterial que ocupa cérebros individuais e que só evoluiu nos humanos - não passa de uma tolice completa". "A crença em tal tipo de alma é basicamente uma superstição", disse ele.
Para pessoas como o biólogo evolucionário Richard Dawkins, falar sobre alma é parte do discurso da fé religiosa, que ele compara a uma doença. E entre os psicólogos evolucionários, a fé religiosa não passa de um artefato evolucionário, uma predileção que evoluiu porque as crenças compartilhadas aumentam a solidariedade grupal e outras características que contribuem para a sobrevivência e a reprodução.
Não obstante, a idéia de uma alma divinamente inspirada não será descartada. Para citar apenas um exemplo, quando perguntaram aos dez candidatos presidenciais republicanos em um debate no mês passado se algum deles não acreditava na evolução, três ergueram a mão. Um deles, o senador Sam Brownback, do Estado do Kansas, explicou mais tarde em um artigo na página editorial deste jornal que não rejeita toda a teoria evolucionária. Mas ele acrescentou: "O homem não foi um acidente, e ele reflete uma imagem e um semblante únicos na ordem criada".
Esse é o ponto central da questão, segundo Nancey Murphy, filósofa do Seminário Teológico Fuller, que escreveu profusamente a respeito de ciência, religião e alma. Os desafios à unicidade da humanidade na criação são tão alarmantes quando a afirmação copernicana de que a Terra não é o centro do Universo, escreve ela no seu livro "Bodies and Souls of Spirited Bodies?" ("Corpos e Almas de Corpos Animados?"), publicado em 2006 pela Editora Cambridge. Murphy argumenta que assim como Copérnico derrubou a Terra do seu pedestal celeste, as novas descobertas feitas em pesquisas sobre a cognição retiraram os seres humanos da sua "localização estratégica" na criação.
Outro teólogo que escreveu bastante sobre o assunto, John F. Haught, da Universidade Georgetown, disse em uma entrevista: "Para muitos norte-americanos a única maneira de preservar a descontinuidade implícita na idéia de alma, de uma alma distinta, é negar a evolução, e vejo isso como algo infeliz".
Não existe nenhum desafio científico verossímil à teoria da evolução como uma explicação para a diversidade e a complexidade da vida na Terra.
Para Murphy e Haught, porém, as pessoas cometem um erro quando assumem que os humanos só podem ser dotados de uma alma se as demais criaturas não possuírem alma.
"A biologia evolucionária demonstra que a transição do animal para o humano é muito gradual para que faça sentido a idéia de que os humanos possuem almas e os animais não", escreveu Murphy, que é pastora da igreja Church of the Brethen (Igreja da Irmandade). "Todas as capacidades humanas atribuídas antigamente à mente ou à alma estão sendo agora estudadas com sucesso como processos cerebrais - ou, mais acuradamente, eu deveria dizer, como processos envolvendo o cérebro, o resto do sistema nervoso e outros sistemas corporais, todos interagindo com o mundo sócio-cultural. Portanto, trata-se de um raciocínio 'falho' querer distinguir os seres humanos do restante da criação".
Ela e Haught citam as idéias de Thomas de Aquino, o filósofo e teólogo do século 13 que, segundo Haught, "falou da existência de uma alma vegetal e de uma alma animal, assim como da alma humana". Haught, que falou perante a União Americana de Liberdades Civis ao contestar com sucesso os ensinamentos da teoria do design inteligente, uma prima ideológica do criacionismo, nas aulas de ciência de Dover, no Estado da Pensilvânia, afirma: "Da forma como vejo a questão, em vez de eliminar a idéia de alma a fim de fazer com que os humanos se encaixem mais harmoniosamente no restante da natureza, seria mais razoável reconhecer que existe algo de análogo à alma em todos os seres vivos".
Mas isso significa, digamos, que o Australopithecus afarensis, o proto-humano famosamente exemplificado pelo esqueleto fossilizado conhecido como Lucy, tinha uma alma? Haught faz uma pausa e, a seguir, diz: "Creio que sim. Acho que todos os nossos ancestrais hominídeos tinham, de alguma forma, uma alma, mas isso não exclui a possibilidade de que, à medida que a evolução continua, o formato da alma possa variar, assim como ocorre de um indivíduo para outro".
quinta-feira, 16 de junho de 2005
Hospital Sírio-Libanês firma maior acordo científico-social privado do País
São Paulo, 15 de junho de 2005 –
Nesta quinta-feira, dia 16, às 11 horas, será anunciado no Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um acord0 inédito no país, na área científica. O neurocientista brasileiro Dr. Miguel Nicolelis, professor titular de Neurobiologia e Engenharia Biomédica e co-diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University (EUA), firmará, em nome da Associação Alberto Santos Dumont de Apoio à Pesquisa (AASDAP), um acordo científico-social com o Hospital Sírio-Libanês que prevê a realização da primeira cirurgia, em um ser humano, para a movimentação de braços robóticos com o uso do cérebro do paciente.
Com a participação de especialistas do Hospital Sírio-Libanês na equipe cirúrgica, no futuro estimado de três anos este deverá ser o primeiro procedimento, no mundo, de implante de uma neuroprótese (interface cérebro-máquina) para restaurar a mobilidade dos membros superiores de um paciente com paralisia corpórea severa. O paciente usará seus sinais cerebrais para controlar os movimentos de próteses mecânicas.
Com esta parceria, o Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês será inserido numa rede internacional de institutos de neurociência, criada pelo Dr. Nicolelis e com sede em Lausanne, na Suíça. Esta rede será formada pelo Centro de Neuroengenharia da Duke University, o Centro de Neurocomputação da Universidade de Jerusalém, o Instituto Internacional de Neurociências de Natal e o Hospital Sírio-Libanês – o único parceiro clínico da rede.
Com esse acordo, o Hospital Sírio-Libanês se firma como a primeira entidade brasileira não-governamental a contribuir com o Instituto Internacional de Neurociência de Natal, a ser construído no município de Macaíba, no Rio Grande do Norte. O Instituto será formado por cerca de 15 laboratórios de pesquisa em neurociência, uma escola e um centro de saúde mental infanto-juvenil, museu de ciência, um parque ecológico e um complexo esportivo a serem construídos em terrenos cedidos pela Universidade do Rio Grande do Norte e o município de Macaíba. O Hospital Sírio-Libanês doará, nos próximos três anos, 1 milhão de dólares para os projetos sociais do Instituto.
“É um marco na ciência brasileira. Esta é a primeira parceria científico-social de vulto da nossa história, que mostra que a ciência de ponta pode ser um agente transformador social no Brasil”, diz Nicolelis. Segundo o superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês, Mauricio Ceschin, “este acordo reforça o caráter de centro de excelência da Instituição, voltada às ações de saúde, ensino e pesquisa”.
A coletiva acontece no Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, que fica na rua Cel. Nicolau dos Santos, 69, Bela Vista, às 11 horas do dia 16, quinta-feira.
Sobre o Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês
O Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês concentra, em uma área de 5.800 m2, todos os recursos necessários à realização de suas atividades relacionadas ao Ensino e à Pesquisa. Além disso, a moderna infra-estrutura do IEP está preparada para receber quaisquer tipos de eventos nas áreas de medicina e saúde: desde a sua fundação, organiza cursos de atualização, simpósios e palestras para os profissionais do setor. Foram criados no Instituto um Comitê de Ética em Pesquisa e programas de Residência Médica. O IEP incluiu no calendário anual de eventos as Palestras para a Comunidade – a promoção da saúde e qualidade de vida da população por meio da transmissão de informações sobre temas relevantes. Acesse www.iephsl.org.br para saber mais sobre as diversas atividades do Instituto.
Hospital Sírio-Libanês
O Hospital Sírio-Libanês é um dos mais importantes do Brasil e da América Latina, resultado de uma ação filantrópica consolidada com tecnologia de ponta, profissionais gabaritados, respeito ao paciente e expansão contínua.
São 54 mil metros quadrados, 2.500 funcionários, médicos do mais alto padrão em 60 especialidades, 277 leitos, dois centros cirúrgicos, duas UTIs e capacidade para 50 cirurgias diárias.
A história tem início em 1921, quando foi criada a Sociedade Beneficente de Senhoras pela primeira geração de sírios e libaneses de São Paulo. O objetivo era angariar fundos para erguer um hospital que atendesse a população de todas as classes sociais e estivesse à altura da cidade paulista. Esse sonho começa a se tornar realidade em 1930.
O ano de 1971 foi marcado pela inauguração de um prédio de dez andares, com capacidade para 100 apartamentos, e da primeira UTI no Brasil, com dez leitos. Em 1992, mais um prédio de 40 mil metros quadrados e 20 andares se somou à estrutura do hospital.
A direção do hospital ficou sob a responsabilidade do dr. Daher Cutait até a data do seu falecimento, dia 6 de junho de 2001. É graças ao perfil ético, moral e humanístico do professor Cutait à frente do corpo clínico e de Dona Violeta Jafet, na presidência da Sociedade Beneficente de Senhoras, que o Sírio-Libanês ficou mundialmente conhecido pelo tripé pioneirismo, excelência e humanismo.
As Pesquisas
O neurocientista Miguel Nicolelis é o mentor de uma das maiores descobertas na área neurológica dos últimos anos. Ele é responsável pelo experimento que abriu caminho para a criação de braços robóticos controlados pela “força do pensamento”.
Nicolelis e sua equipe da Duke University (EUA) desenvolveram um sistema que permite que macacos controlem um braço de robô por meio de sinais cerebrais, ou seja, os impulsos do cérebro são transformados em comandos matemáticos que podem ser interpretados por computador, permitindo que os animais comandem os movimentos. Para esta pesquisa, foram implantados eletrodos em regiões do cérebro dos animais associadas aos movimentos.
A atividade das células neurais foi analisada durante as atividades da macaca Aurora ao jogar uma espécie de videogame. Ela controlava um cursor com um joystick e tinha que acertar alvos que apareciam na tela fazendo a melhor trajetória no menor tempo possível. Ao acertar, ganhava um gole de suco de laranja.
O passo seguinte foi retirar o joystick de Aurora. A partir daí, era o braço mecânico, em uma outra sala, que movia o cursor a partir das ordens dadas pelo cérebro dessa macaca rhesus. No começo, ela continuava mexendo o braço no vazio para manipular o cursor. Mas, em um tempo curto, percebeu que o movimento do cursor não dependia disso.
Aurora aprendeu a assimilar o braço robô como se fosse seu próprio braço. Isso mostra que, ao contrário do que se pensava, o cérebro adulto tem uma capacidade de adaptação tão grande que permite incorporar um artefato externo. Segundo Nicolelis, “o tempo todo incorporamos ferramentas como se fossem partes do nosso corpo. A raquete é a extensão do braço do tenista, o piano é a extensão dos dedos do músico.” A mesma técnica poderá ser usada para tratar pacientes que sofreram lesão irreversível na medula espinhal, ou os que sofrem com mal de Parkinson e de Alzheimer. Nicolelis também pensa em desenvolver um exoesqueleto, como se fosse uma segunda pele: “o robô que carrega o paciente".
Este trabalho de Miguel Nicolelis consta da famosa lista elaborada pelo MIT-Instituto de Tecnologia de Massachusetts - sobre as tecnologias que vão mudar o mundo.
Ele também foi indicado como um dos 50 líderes mundiais da ciência pela Scientific American. O reconhecimento é dado há três anos pelos editores da revista de divulgação científica mais importante do mundo, em três áreas: pesquisa, políticas públicas e negócios. Nicolelis foi escolhido um dos 20 líderes de pesquisa.
O Cientista
Miguel Angelo Laporta Nicolelis nasceu na cidade de São Paulo, no dia 07 de março de 1961. Criado no bairro da Bela Vista, estudou no Colégio Bandeirantes, e formou-se em Medicina, em 1984, pela Universidade de São Paulo (USP) e é doutor em Neurofisiologia também pela USP. Nicolelis saiu do Brasil para fazer o pós-doutorado na Hahnemann University, Philadelphia, EUA.
Atualmente dirige o Laboratório de Neurociências da Duke University (EUA), o maior laboratório de neurociências do mundo. Também na Duke University é professor titular de Neurobiologia e Engenharia Biomédica, e co-diretor do Centro de Neuroengenharia.
Nicolelis é uma das mais respeitadas autoridades mundiais em neuropróteses, ou interfaces cérebro-máquina — que podem levar ao desenvolvimento de próteses neurais para reabilitação de pacientes que sofrem de paralisia corporal severa.
Incansável, Nicolelis está sempre trabalhando em algo novo no seu laboratório na Duke University. Recentemente, desenvolveu uma metodologia que grava um “filme” panorâmico do cérebro de ratos, que permitiu descobrir a assinatura de mudanças crucias, como o início do tipo de sono em que ocorrem os sonhos e a fixação de memórias.
Os trabalhos de Miguel Nicolelis são freqüentemente publicados em revistas e jornais científicos de renome mundial como Nature, Scientific American, The Journal Of Neuroscience, entre outros.
Os mais de 10 anos longe do Brasil não apagaram suas paixões pela música brasileira e futebol. Miguel Nicolelis sempre apreciou a boa literatura, gosta de escrever, prefere ouvir óperas e, não importa em que lugar do planeta esteja, ele não perde um jogo do Palmeiras!
A sua paixão pelo país e a crença em suas “utopias” possibilitou a criação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que começará a ser construído neste ano de 2005.
Miguel Nicolelis
O brasileiro Nicolelis tem mestrado e doutorado em Neurofisiologia pela Universidade de São Paulo (USP). Fez trabalhos de pós-doutorado na Hahnemann University, nos Estados Unidos. Hoje é co-diretor do Centro de Neuroengenharia e professor de Neurobiologia, Engenharia Biomédica e Ciências Psicológicas e do Cérebro na Duke University.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2004
O QUE É NEURO-PSICANÁLISE
Yusaku Soussumi
O objetivo deste trabalho é tratar da neuro-psicanálise, um novo método científico que consiste em combinar dois métodos já existentes, ou seja, um método que busca integrar, sobre uma base empírica, a psicanálise e a neurociência.
O início de movimentos, ainda tímidos, por parte de psicanalistas que ousavam contrariar a orientação das instituições psicanalíticas de buscar estudar as possíveis correlações entre os conceitos, os achados da psicanálise com as descobertas da neurociência, ocorreu na Década do Cérebro. Data de 1994 a fundação do grupo de estudos de neurociência e psicanálise no Instituto de Psicanálise de Nova York, quando os psicanalistas, encabeçados por Arnold Pfefer, buscaram em neurocientistas da Universidade de Columbia como James Schwartz, os conhecimentos neurocientíficos que pudessem correlacionar com seus conhecimentos psicanalíticos. Iniciava-se um intercâmbio de informações e conhecimentos entre psicanalistas e neurocientistas. À essa época, em diversos pontos do mundo como em Frankfurt, Viena, Londres, Bruxelas e São Paulo, existiam psicanalistas que sozinhos ou em grupos buscavam estudar as possíveis correlações entre as duas ciências. Iniciei na década de 1980 investigações neste campo tendo tido, somente em 1994, a possibilidade de apresentar um trabalho sobre o assunto num evento psicanalítico, a Bienal da Psicanálise de 1994. Em 1996, Mark Solms, psicanalista inglês com formação em neurociência, que vinha trabalhando em Londres e publicando trabalhos sobre o assunto desde a década de 1980, foi convidado pelo Instituto de Psicanálise de Nova York para coordenar o grupo de estudos de neuro-psicanálise. Com o aumento de psicanalistas e de neurocientistas interessados nos estudos das correlações das duas disciplinas que beneficiavam as duas entre si, resolveu-se, sob a coordenação de Arnold Pfeffer e Mark Solms, fundar uma sociedade que congregasse esses psicanalistas, neurocientistas, solitários ou organizados em grupos, e que pudesse ser um pólo de orientação, atualização e de trocas. Assim, em julho de 2000, em Londres, durante a realização do I Congresso Internacional de Neuro-Psicanálise, um comitê fundador que foi constituído com as lideranças de diversos pontos do planeta, fundou a Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise. Fui o representante brasileiro no comitê fundador, criando o Centro de Estudos e Investigação em Neuro-Psicanálise de São Paulo que integrou o conjunto de grupos pelo mundo que compunha as bases da nova Sociedade.
Para compreender a proposta metodológica da neuro-psicanálise é interessante esclarecer as razões pelas quais Freud, sendo neurologista, criou a psicanálise que, em essência, é um método psicológico para dar significados aos processos mentais sem, no entanto, perder o vínculo com a neurologia, e sem perder a esperança de que um dia a psicanálise voltaria a se unir à neurologia, quando esta tivesse alcançado um grau de desenvolvimento e oferecesse conhecimentos que faltavam naquela época.
No tempo de Freud, a neurologia ainda era uma disciplina relativamente nova, e tinha incorporado da medicina interna o método anátomo-clínico, que consistia nos levantamentos dos sinais e sintomas clínicos das doenças para buscar a confirmação anátomo-patológica nas autópsias. Isto queria dizer que o clínico fazia as hipóteses diagnósticas das doenças através dos sinais e sintomas, e só tinha a comprovação quando o paciente era submetido à autópsia. Com o decorrer do tempo, em face das experiências anátomo-clínicas, os clínicos através dos sinais e sintomas inferiam as lesões anatômicas das doenças. A escola germânica privilegiava, acima de tudo, os achados anátomo-patológicos, e assim os sinais e sintomas não explicados pelas lesões anatômicas eram desconsiderados. Por esta época, os neurologistas estavam às voltas com algumas doenças como histeria, neurastenias que, apesar da exuberância dos sintomas – por exemplo, paralisias de membros – os patologistas nada encontravam nas autópsias para justificá-las. Trabalhando neste método, Freud se deu conta de suas limitações. A escola francesa, tendo Charcot como figura central, atraiu a atenção de Freud, que foi fazer um estágio com ele, em1885-86, para tomar contato com o que também era método anátomo-clínico, mas que privilegiava os sinais e sintomas, obtidos na observação meticulosa. Ou seja, estes não eram rejeitados, mesmo que não se encontrassem os substratos anatômicos na autópsia. Esta postura de Charcot teve uma influência marcante em Freud, que passou a praticar essa modalidade de método clínico quando retornou a Viena. Charcot tinha uma hipótese de que as lesões não surgiam nas autópsias porque eram de natureza fisiológica, e de origem hereditária, e que eram micropatologias que o desenvolvimento da técnica no futuro iria evidenciar.
Com a experiência prática, e sob a influência do neurologista inglês Hughlings Jackson, Freud começou a se dar conta de que essas manifestações não apareciam nas autópsias por serem fenômenos de natureza psicológica e, por outro lado, não se encerravam em localizações restritas em centros no cérebro. A época marcava o auge do localizacionismo em face dos achados de Broca e Wernicke. Diferentemente do aceito, para Freud as funções ocorriam não em áreas localizadas, mas na interação dinâmica de diversas áreas que correspondiam a funções complexas. Freud deu-se conta desses aspectos ao estudar a afasia e as perturbações de movimentos voluntários e não funções psicológicas.
Na medida que avançava nas observações da histeria e outros quadros mentais, mais fortalecia a convicção de que, na realidade, se tratavam de questões de funções de natureza psicológicas, que ocorriam na dinâmica de interações de diversas áreas cerebrais, que nunca seriam detectadas pela anatomia patológica. Em 1895, Freud fez com o Projeto para uma psicologia científica, sua última tentativa de construir um esquema dinâmico de funcionamento neurológico, com elementos que eram produtos de suas conjecturas, imaginações, pois as concepções neurológicas vigentes não tinham alcançado um desenvolvimento necessário para ancorar suas hipóteses funcionais. Por essa época, Freud se dava conta de que podia estudar as funções psíquicas pela observação clínica acurada, sem conjecturas e imaginações, buscando na dinâmica psíquica em si a explicação que a dinâmica neurológica não podia oferecer, mas deveria existir e seria conhecida com o desenvolvimento da neurobiologia. Aí surgiu a psicanálise com a sua metapsicologia.
Hoje, a tendência natural tanto dos neurocientistas como dos psicanalistas, no primeiro momento, é buscar uma correlação isomórfica entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos, o que causa uma simplificação errônea, que não leva em conta as características das duas ciências.
A partir de 1939, principalmente com o trabalho de Alexander R. Luria, desenvolveu-se dentro do campo da neurociência do comportamento, a neuropsicologia dinâmica, cujos princípios se aproximam aos da psicanálise por aceitar que as funções da fisiologia cerebral ocorrem na interação dinâmica de diversas áreas espalhadas pelo cérebro, e não resultante de uma localização num centro. Nestes termos, podemos afirmar que a psicanálise se comporta como uma neuropsicologia.
Luria quando escreveu seu último livro em 1976, parece que tinha esgotado os principais assuntos cognitivos, e se propunha a entrar num campo não abrangido pelo cognitivismo: motivação, emoções profundas e personalidade. Ele faleceu antes de iniciar seu projeto.
Freud descobriu que os conteúdos subjetivos da vida mental não são facilmente acessíveis à investigação científica. Forças poderosas trabalham para se oporem às tentativas de investigação de conteúdos privados da mente individual. Freud classificou estas forças – que se expressam clinicamente como vergonha, culpa, ansiedade e outros – sob o nome de "resistências". Essas dificuldades ocorrem pelo fato de que as determinantes causais inferidas dos dados observacionais primários (acontecimentos mentais inconscientes que subjazem os processos de pensamento conscientes) não são conscientes por definição. Ele experimentou várias técnicas para vencer tais resistências (por exemplo: hipnotismo e técnica da pressão) e, com base nessas experiências, gradualmente desenvolveu a técnica psicanalítica definitiva da associação livre.
Tanto Freud como Luria sempre insistiram que para descobrir a organização neurológica do aparelho mental humano como compreendemos na psicanálise é necessário, em primeiro lugar, dissecar a estrutura interna psicológica das várias mudanças na personalidade, na motivação e na emoção complexa. Assim, os múltiplos fatores subjacentes produzindo esses sintomas e síndromes podem ser identificados, e cada um correlacionado com sua "cena de ação" neuro-anatômica.
Entretanto, devido às forças de resistência descritas, esses fatores não podem ser revelados pelas técnicas neuropsicológicas convencionais. Os testes psicométricos e técnicas de comportamento básicos, que os neuropsicólogos usam para acessar o estado mental dos pacientes neurológicos, foram destinados para a investigação das desordens das funções cognitivas de superfície. Para que possamos revelar a estrutura psicológica subjacente, profunda, das desordens da personalidade, motivação e emoção complexa que aflige o paciente neurológico, portanto, a técnica da associação livre deve ser introduzida dentro do método neuropsicológico de Luria.
Este tem sido o método neuro-psicanalítico por excelência, que evita as correlações isomórficas da psicanálise com a neurociência, e evita o reducionismo que leva à anulação do que é fundamental no método psicanalítico e do significado mais profundo de seus conceitos.
O que tem sido recomendado, e que se acredita proverá um pilar para uma consistente integração da psicanálise e neurociência, é uma plena investigação psicanalítica de pacientes com lesões neurológicas focais. Em outras palavras, o que se recomenda é o mapeamento da organização neurológica do processo mental humano que a psicanálise revelou, usando a versão modificada do método de Luria da análise da síndrome, pelo estudo da estrutura profunda das mudanças mentais nos pacientes neurológicos que podem ser discernidos dentro do setting psicanalítico.
Desde que as investigações psicanalíticas válidas só podem ser conduzidas no contexto do tratamento psicanalítico, o método investigatório que se recomenda tem um potencial de benefício secundário. Ele permite que se veja se e em que extensão o tratamento psicanalítico pode contribuir para a reabilitação de várias desordens de personalidade, motivação e emoção, que estão associados com o dano focal neurológico.
Os trabalhos dentro dessa metodologia neuro-psicanalítica vêm sendo realizados no campo das memórias, das emoções, dos sistemas motivacionais, do inconsciente trazendo contribuições valiosas para as duas ciências. Um exemplo onde as contribuições psicanalíticas têm sido muito ricas é no campo dos estudos da regulação afetiva, orientando as pesquisas da neurociência do desenvolvimento e psicologia do desenvolvimento, campo em que as chamadas relações de objetos, tão estudados por psicanalistas como Melanie Klein, Fairban e Mahler têm contribuído de forma inegável.
É no campo dos lesionados cerebrais onde mais se pode perceber a correlação e a complementação das duas disciplinas. Assim, por exemplo, os estudos dos estados conhecidos como de confabulação nos pacientes com lesão bilateral da região ventro medial no prefrontal ou na síndrome de Korsakof, têm permitido a investigação psicanalítica que se realiza além das investigações neuropsicológicas. Pelo método psicanalítico, têm-se podido evidenciar nessas manifestações confabulatórias as características especiais do sistema inconsciente em plena expressão, como trazidos por Freud, quais sejam: 1. a tolerância da contradição mútua; 2. ausência do tempo; 3. a substituição da realidade externa pela realidade psíquica; 4. o processo primário (mobilidade da catexia).
Nas chamadas síndromes do hemisfério cerebral direito, que ocorrem nas lesões da região peri-silviana, geralmente por problemas de irrigação da artéria cerebral medial que provoca paralisia no lado esquerdo do corpo, ocorrem alguns sintomas exuberantes como: 1. anosognosia (inconsciência do déficit); 2. anosodiaforia (aceitação intelectual com negação emocional); 3. negligência (ignorância do lado esquerdo do espaço); 4. misoplegia (obsessividade e ódio pela lesão) e apraxia espacial (dificuldade de atuar o espaço) etc. Esse quadro, cujos sintomas são explicados coerentemente por teorias neuropsicológicas relacionadas com as perdas das funções do hemisfério direito e permanência das funções do hemisfério esquerdo, oferecem nas situações de investigações psicanalíticas a possibilidade de se descobrir motivações inconscientes, não acessíveis aos métodos neuropsicológicos comuns, que levam os indivíduos às manifestações de tais sintomas de negação da realidade dolorosa, sugerido que o hemisfério direito ausente tem a função psíquica de realizar o luto pelas perdas, superar a melancolia, e desenvolver a capacidade relacional do indivíduo dos estados narcísicos para relações de objeto, propiciando, conseqüentemente, a ampliação de suas relações espaciais.
Yusaku Soussumi é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; membro fundador da Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise; e presidente do Centro de Estudos de Neuro-Psicanálise de São Paulo.
sexta-feira, 5 de março de 2004
Neurônio tem "personalidade", diz estudo
Neurônio tem "personalidade", diz estudo
RICARDO BONALUME NETO
ENVIADO ESPECIAL A NATAL
As células do cérebro têm "personalidade" própria, e essa diferença entre elas promete dar pistas aos cientistas sobre as causas e possíveis tratamentos de doenças mentais e do sistema nervoso.
Essas células do sistema nervoso, os neurônios, podem ser classificadas em pelo menos 15 tipos, de acordo com seu comportamento. "Cada neurônio tem uma personalidade elétrica", diz o pesquisador Henry Markram, do Instituto do Cérebro e da Mente, em Lausanne, na Suíça.
Markram fez uma palestra sobre o tema ontem no 1º Simpósio de Neurociências de Natal, o evento que está dando o pontapé inicial na criação do futuro Instituto Internacional de Neurociência, que está sendo construído em Macaíba, município vizinho da capital potiguar.
A transmissão dos sinais nervosos é um evento físico-químico, que envolve sinais elétricos interagindo com mensageiros químicas conhecidos como "neurotransmissores".
Os neurônios podem ser classificados por esse perfil elétrico -por exemplo, se "disparam" rapidamente ou se o fazem com uma pequena espera inicial-, e também pelos genes que ativam.
Markram e colegas compararam esses dois perfis, e notaram que havia uma correspondência entre eles -de modo que, sabendo o comportamento elétrico, por exemplo, é possível deduzir o padrão de ativação dos genes.
O número, o tipo, os contatos dos neurônios entre si -"os neurônios são muito promíscuos", diz o pesquisador-, permitem deduzir regras sobre seu comportamento. E isso possibilita estudar "como podem mudar em diferentes tipos de doenças", diz ele.
Já existem algumas indicações de que esses circuitos cerebrais deficientes estariam por trás de problemas como o autismo, diz Markram. "É como um microcomputador com problemas, que nós tentamos descobrir quais são", afirma o cientista.
Apesar dessa semelhança com o que acontece num computador baleado, nenhuma estrutura computacional existente imita o que se passa no cérebro humano, lembra ele. Uma habilidade única é a capacidade do cérebro humano de associar eventos acontecidos em momentos distintos -como algo passado há dois segundos, há dois minutos ou há dois anos simultaneamente.
Por trás dessas capacidades está a área do cérebro que mais evoluiu e se diferenciou no homem em relação a outros mamíferos, o chamado neocórtex, que responde por 80% do cérebro do ser humano moderno.