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sábado, 15 de novembro de 2008

Psicanalista e neurocientista debatem sobre o diálogo hoje possível entre os seus campos de

Pesquisa FAPESP - Edição 998 - Revolução Genômica I-III
Suplemento Especial > Revolução Genômica
Mario Eduardo Pereira e Sidarta Ribeiro
Psicanalista e neurocientista debatem sobre o diálogo hoje possível entre os seus campos de
conhecimento
Mariluce Moura
Junho 2008
                Se a medicina, a neurologia e a psiquiatria do século XIX constituíram o solo original da teoria freudiana, Sigmund Freud teve que, serena e incisivamente, operar uma ruptura radical em relação a essa origem – a esse pai, poderíamos dizer – para desenvolver, de fato, a psicanálise, seus princípios fundamentais, postulados e propostas terapêuticas e, nesse movimento, inventar um campo próprio de conhecimento. Tão fecundo, aliás, que aos poucos sua produção extravasou completamente o âmbito clínico, se difundiu de forma espantosa e penetrou a cultura ocidental com tamanha força que a linguagem cotidiana e até a noção de sujeito, para certa exasperação dos filósofos, viram-se cada vez mais carregadas das visões freudianas do inconsciente ao longo do século XX.

                Em paralelo, medicina, psiquiatria e neurologia seguiram seus próprios cursos, ignorando essa espécie de filha espúria que não cabia no campo científico tradicional. Nada é tão simples, entretanto, na história real da evolução do conhecimento – não se trata de algo comparável à decisão de duas pessoas que cortam relações pessoais porque simplesmente não se bicam. E tanto é assim que com os enormes avanços da neurociência nas últimas décadas, a par de um aparente cansaço de alguns postulados originais de Freud, seguidamente reinterpretados por novos pensadores da psicanálise, muitas vezes em sério confronto teórico, alguns contatos timidamente começaram a se insinuar entre os dois lados.

                 Não foi difícil caminhar daí até a indagação, por exemplo, quanto à possibilidade real de imagens do funcionamento do cérebro de uma pessoa no momento em que sonha, flagradas com precisão crescente graças às tecnologias que fazem parte do arsenal da neurociência contemporânea, darem fundamento biológico e suporte científico stricto sensu às noções de Freud sobre o papel dos sonhos na vida do indivíduo – basilares em seu pensamento. E, por fim, avançar até a interrogação sobre as possibilidades de um encontro produtivo entre neurociência e psicanálise em benefício de mais uma visão nova e rica a respeito do que é especificamente ser humano – essa questão jamais esgotada – na confluência incontornável entre o biológico e o cultural. E em benefício também, para ficar no terreno da prática, de tratamentos mais eficazes das tantas neuroses, desordens, síndromes, transtornos e – por que não? – doenças mentais, enfim, que afligem homens e mulheres do século XXI.

              Impossível não é. Mas a julgar pelo debate dos “Novos fundamentos neurológicos para a teoria freudiana”, comandado pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, 37 anos, e pelo psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira, 48 anos, na tarde do sábado, 17 de maio, no Pavilhão Armando de Arruda Pereira, Parque do Ibirapuera, dentro da programação cultural da exposição Revolução genômica, as possibilidades efetivas de um tal encontro não parecem exatamente fáceis no curto prazo. Até porque psicanálise e neurociência são ambas campos de conhecimento autônomos, com objetos, métodos e linguagens bem diversos, um aparentemente mais confortável hoje entre as humanidades e o outro solidamente plantado na área das ciências biomédicas, e não há nenhum desejo manifesto dos seus especialistas de ver um absorvido pelo outro.

                  Na verdade, Sidarta Ribeiro, diretor científico do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, detalhou durante o debate determinadas experiências recentes no campo da neurociência que, em sua visão, dão suporte a cinco proposições centrais de A interpretação dos sonhos, a bela pedra fundamental do edifício freudiano. E Mario Eduardo Costa Pereira, livre-docente do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Serviço de Psicanálise do Hospital das Clínicas da mesma universidade, depois de resumir as idéias de Freud sobre a questão da hereditariedade, procurou mostrar em que dimensão o criador da psicanálise faz um debate com os temas da genética psiquiátrica contemporânea. Em seu entendimento, Freud em nenhum momento da construção de sua teoria e de sua proposta terapêutica descartou os elementos biológicos, de tal modo que situou mesmo a hereditariedade entre as precondições da neurose. Entretanto, observou, questão crucial em Freud, que é a tomada de posição do sujeito, jamais se resolveria no campo do experimento genético, mas só no campo da clínica e da escuta.

                   Sidarta, na defesa de que proposições essenciais de Freud são passíveis de demonstração neurofisiológica, referiu-se, por exemplo, a um experimento publicado em 2003, controlado por ressonância magnética funcional, em que se submetiam imagens embaralhadas ao olho dominante de um paciente e imagens claras de um objeto ao olho não dominante durante frações de segundo, e em seguida fundiam-se as imagens, obtendo algo embaralhado com um objeto no meio, e o resultado era que o paciente não tomava consciência de que vira o objeto.
 
                   “O experimento se vale de um fenômeno chamado rivalidade binocular. É uma maneira de você fazer uma estimulação sensorial invisível. O objeto está lá, mas a pessoa não tem consciência dele”, explicou enquanto exibia as imagens.

                 Em seguida ele mostrou imagens de ativação de duas regiões cerebrais visuais com funções diferentes, uma chamada via dorsal e a outra via ventral. “A dorsal é uma via mais ativada por movimentos e quando se apresenta a alguém objetos fixos, por exemplo, faces e ferramentas, ela tem uma preferência pelas últimas. Acreditamos que é porque ferramentas têm implícito nelas o movimento, o uso. Já a via ventral é mais ativada por faces.” O experimento a que ele se referia incluiu, assim, estímulos por frações mínimas de segundo, em que a imagem do objeto apresentada dentro da imagem embaralhada era uma ferramenta,        primeiro, e depois uma face. “Do ponto de vista da consciência, a pessoa está sempre vendo uma imagem embaralhada, não tem consciência de que está vendo faces ou ferramentas. Mas qual é o resultado da ressonância?”, ele indaga e mostra um novo slide com barras pretas e cinzas ao público: “Na via dorsal, as barras cinzentas são para a situação visível e as barras negras para a invisível, quando o olho dominante está com a imagem embaralhada. O que vocês estão vendo é o seguinte: para faces, tem muito pouca ativação quando se utiliza a condição invisível, que são as barras pretas bem baixinhas. E tem bastante ativação para faces quando você utiliza a condição visível. Quando se utilizam as ferramentas, o que acontece? A visível cresce um tanto, mas também tem muita ativação na condição invisível”.

                   A pergunta é então: “Isso significa o quê? Que embora a pessoa não tenha a menor consciência do que está vendo, o córtex visual dorsal dela sabe que aquilo é uma ferramenta e não uma face”. Para Sidarta Ribeiro, esse é “um exemplo concreto, mensurável, quantitativo, de um processamento inconsciente. No caso, um processamento sensorial inconsciente. Você pode perceber que o cérebro tem a informação, mas o ego consciente não tem a informação”. 

                   O pesquisador acrescenta para a platéia atenta: “Imagino que é o tipo de experimento que Freud faria se tivesse acesso à ressonância magnética funcional em sua época”. 

A posição do sujeito
                   Em sua fala, que intitulou “Freud e a genética psiquiátrica”, Pereira começou por situar o médico Freud, formado na Faculdade de Medicina da Universidade de Viena, e que estudou “na maior parte do tempo junto com o grupo de Ernest Bruck, ou seja, um dos representantes da escola fisicalista da fisiologia em Viena”. Era um pesquisador de bancada que depois se dedicou à pesquisa neuropatológica. Lembrou que num texto de 1896, “A hereditariedade na etiologia das neuroses”, Freud afirmava que “a opinião sobre o papel etiológico da hereditariedade das doenças nervosas deve decididamente basear-se num exame estatístico imparcial e não em petições de princípio”. Ou seja, nem no início nem em momento algum de sua obra, disse Pereira, “Freud descartou a participação dos elementos biológicos na necessidade da descrição dos fatos anímicos que pretendia descrever”.

                   Falava evidentemente não de uma hereditariedade genética tal como é pensada hoje, mas dentro de uma tradição francesa segundo a qual “aquilo que, num certo grupo humano, se inscrevesse como desvio, como tara, como algo maléfico, inclusive do ponto de vista moral, se transmitiria de geração para geração. Freud também não pensava na herança num contexto darwinista, “tinha da transmissão uma concepção lamarckista, ou seja, a idéia de que certos elementos importantes para a espécie que pudessem ser assimilados em dado momento histórico se transmitiriam de geração a geração”. E Jean-Martin Charcot, o grande nome nos estudos da histeria, com quem Freud foi estudar em Paris, queria demonstrar que essa era uma doença neurológica como as outras, cujo elemento principal seriam “as famílias
neuropáticas”, enquanto os demais fatores etiológicos não passariam de causas incidentais.

                 Era mais ou menos esse o panorama dominante na virada do século quando Freud entrou no debate e o retomou propondo que a hereditariedade era precondição na patogênese das grandes neuroses. “Não poderia prescindir da colaboração de causas específicas, mas a importância da predisposição hereditária estava comprovada, conforme sua visão, pelo fato de que as mesmas causas específicas agindo num indivíduo saudável não produziam efeito patológico manifesto, ao passo que numa pessoa predisposta provocavam a emergência da neurose.” Assim, “é necessário compreender a inscrição dessa herança num certo contexto, que é ao mesmo tempo simbólico, histórico e cultural”. Mario Eduardo Pereira ressaltou que Freud comparou a ação da hereditariedade “ao multiplicador num circuito elétrico, que exagera o desvio visível da agulha, mas não pode determinar a sua direção”. E observou então que um dos pontos centrais do debate entre genética e psicanálise, muitas décadas depois, será a questão da posição do sujeito. “A questão é se ele é o responsável por suas ações ou se utilizará a genética como uma espécie de grande álibi biológico em que o sujeito padece de uma herança.”

                 Nesse ponto Pereira deixou Freud um pouco à margem, para abordar a crise em que se abismou a psiquiatria dos anos 1950 aos 1980. Foram quatro, segundo ele, os fatores principais dessa crise profunda. Primeiro, dado que a psicanálise passara a ocupar um papel cada vez mais importante na psiquiatria, as concepções sociológicas, comunitárias, o papel central da figura do médico começaram a perder poder. Em segundo lugar, a psiquiatria não tinha uma boa eficácia terapêutica: os primeiros medicamentos funcionavam com muitos efeitos colaterais e o tratamento mirava só os sintomas, ainda que tenham permitido uma revolução no campo do tratamento das psicoses e a redução drástica das internações. 

                  Também os diagnósticos psiquiátricos não eram confiáveis, “e vários estudos mostraram que diferentes países e culturas atribuíam a mesma nomenclatura para fenômenos muito diversos”.

               E, por fim, a própria definição de doença mental entrou em crise.
               Pereira lembrou aí a figura de Kurt Schneider, que na década de 1950 propõe que doença mental é uma contradição em termos, porque se algo é doença, não é mental, idéia que Thomas Szasz, hoje vivo ainda, leva às últimas conseqüências ao argumentar que os critérios de definição de doenças mentais são éticos e sociais e não médicos. “Ou seja, para ele tratase de uma má metáfora, mas com conseqüências práticas e políticas muito intensas. Não podemos utilizar a noção de doença mental impunemente.” É a partir de então que entra em cena a expressão mental disorder. “O termo mental disorder passará a designar um
instrumental de natureza pragmática, prática. Nós, sociedade civil organizada, vamos deliberar que fenômenos desejamos ou não que a psiquiatria aborde com uma visão médica, vamos estabelecer critérios objetiváveis para identificar esses fenômenos, vamos colocar um rótulo nesse grupo de critérios e isso vai ser uma disorder. Ou seja, não tem qualquer caráter
ontológico, não tem qualquer caráter substancial, é um instrumento prático para intervir
psiquiatricamente em questões humanas concretas”, resume o pesquisador.

                   Inumeráveis problemas vão marcar essa opção que se fortalece nos anos 1970 e Pereira lembra, a propósito, que o comportamento homossexual foi excluído da lista de transtornos psiquiátricos pelo voto, por pressão da sociedade civil, no famoso Congresso da Associação Psiquiátrica Americana em 1974. Não que a exclusão lhe pareça mal, o exemplo serve para demonstrar a crescente perda de autoridade ou de legitimidade científica do psiquiatra. A palavra desordem também abre espaço para a noção de ordem mental que jamais é explicitada. O que se consolida, na visão do pesquisador, é a vitória de Szasz, com as desordens mentais ocupando o lugar de uma categoria pragmática, operacional e intencionalmente aberta. E se assim é, se não remete a nenhum elemento propriamente ontológico substancial de doença, por que o médico se ocuparia disso? Por que se ocuparia de categorias ético-morais? “Então, nesse sentido a psiquiatria não seria uma especialidade médica e biológica, mas seria simplesmente uma instrumentalização biológica de intervenção de práticas políticas.” Ora, uma vez constatada essa contradição, “ela causa um incômodo no campo psiquiátrico que muitos psiquiatras respondem de uma maneira muito apropriada: isso que se descobre na psiquiatria simplesmente é a causa secreta de toda a medicina. Só que na psiquiatria aparece antes e mais claro”.

           Em meio ao enfraquecimento da psiquiatria, a genética psiquiátrica é vista como “uma espécie do farol que promete o repatriamento daquelas instâncias que foram delegadas ao conceito de disorder, ao campo da medicina dura fundada em entidades autônomas de natureza biológica”.

              Entretanto, por mais promessas que venham dessa fundamentação genética, o problema retorna ao ponto de partida, diz Pereira, depois de relatar uma série de histórias hipotéticas em que está sempre em jogo a tomada de posição de uma pessoa frente às circunstâncias que a desafiam, para o qual o experimento genético em nada contribui.

             Sidarta Ribeiro em sua fala retomou novos aspectos da vida de Freud, sua infância, sua relação com a família, antes de observar que o estado-da-arte em neurociência quando Freud  se formou médico, para quem estava interessado no cérebro e no comportamento, era a anatomia. A fisiologia estava em seus primórdios, “o que já existia bastante no século XIX  era a prática de matar um animal, retirar o seu cérebro, fixar aquele tecido, cortar bem fino e olhar no microscópio. E foi o que Freud fez por muitos anos E nesse sentido ele passou muito perto de grandes descobertas da anatomia que outros cientistas fizeram, da descoberta do neurônio, por exemplo, em 1878, mas ele estava mais interessado no tecido vivo, não no tecido morto, daí por que se orienta para estudos de fisiologia”.

Expulsão e reabsorção
               Sidarta Ribeiro se refere também ao estágio em Paris como o grande ponto de virada de Freud, de seu retorno a Viena, quando ela já constata que “existem de fato disfunções psicológicas que são de origem orgânica”, mas mira outras enfermidades que, embora tenham sintomas muito graves, ele crê que poderá resolver pela palavra ou pelo comportamento. Faz referência às várias fases da evolução da obra teórica e clínica de Freud, ao grande marco que é A interpretação dos sonhos. “O que acontece nesse momento”, diz,“é que ele de fato se descola da neurociência de seu tempo, da neuroanatomia, da fisiologia, e cria uma série de conceitos novos, uma teoria nova, que lhe permite falar de fenômenos que a neurociência de seu tempo não permitia”.

              Ribeiro detalhou para o público, com farta citação de autores, muitas passagens da vida de Freud, até sua morte no começo da guerra em 1939, para em seguida falar de duas descobertas que no pós-guerra foram vistas como fatos científicos que contribuíam para fragilizar a teoria freudiana, mas que, em sua visão, décadas depois, na verdade contribuíram para lhe dar mais suporte científico: a descoberta em 1953 do sono REM em bebês (da sigla rapid eyes movements), acompanhada da constatação de que nessa fase do sono os adultos sonhavam, e a descoberta, em 1958, das drogas antipsicóticas, a partir do haloperidol, um antagonista do receptor dopaminérgico do tipo 2. Vários outros exemplos ligados à evolução do conhecimento neurocientífico que investem contra Freud foram examinados pelo pesquisador, até chegar aos experimentos que já nos final dos anos 1990 e neste começo de século XXI, em seu entendimento, revertem esse quadro.

                      Além do experimento já citado que serviria de apoio à idéia de que grande parte do processamento mental é inconsciente, Sidarta Ribeiro detalhou várias outras experiências que se relacionam a quatro outras assertivas da teoria freudiana. E resumiu no final a relação entre psicanálise e neurociência nestas palavras:
        “A primeira frase: ‘Grande parte do processamento mental é inconsciente’. Não preciso nem reformular essa frase, é um fato que pode ser verificado empiricamente, com experimentos, separando sujeito de objeto. Próxima: ‘Pensamentos indesejados podem ser reprimidos e se tornar inconscientes’. Vamos dizer que o córtex pré-frontal controla a supressão intencional de memórias por meio da desativação do hipocampo e da amídala. Próxima: ‘Sonhos contêm restos diurnos’. Podemos dizer que os sonhos reverberam memórias em nível eletrofisiológico e molecular. Mais uma: ‘Alucinações psicóticas são semelhantes a sonhos’. Vamos dizer que  a vigília, em um modelo animal de psicose, é  eletrofisiologicamente similar ao sono REM por causa de um aumento de dopamina. Mais uma: ‘Sonhos satisfazem desejos e antidesejos’.

           Que tal ‘os sonhos concatenam fragmentos de memórias de forma a simular expectativas futuras de recompensa e punição mediadas por dopamina’? Mais uma: ‘Sonhos são conglomerados de formações psíquicas’. Isso é muito belle-époque. Que tal ‘os sonhos são
conglomerados de memórias’? E mais uma: ‘Sonhos são o caminho real para o inconsciente’.
Que tal ‘os sonhos permitem acessar o banco de memórias’?”. Nessa concepção, ele concluiu,
“o inconsciente tem uma definição biológica clara, ele é a coleção de todas as memórias que
temos e de todas as suas combinações possíveis”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Freud não explica (quase) nada

Reinaldo José Lopes

É irônico que um especialista em demolir ídolos, um sujeito que esmigalhava idéias pré-concebidas lambendo os beiços, feito gourmet, tenha ele próprio virado um monstro sagrado. Refiro-me, claro, a Sigmund Freud, o pai da psicanálise. O problema com a canonização de Freud é simples. Assim como não dá para negar a importância do psiquiatra vienense na história das idéias do Ocidente (e, por favor, leia “história” como se a palavra estivesse escrita com neon e letras garrafais), também é inegável que o grosso do que ele propunha como explicação da mente humana é... bem, porcaria. Pronto, falei.

Também é ruim o fato de muita gente ter esquecido o Freud em começo de carreira, que desejava achar bases biológicas, neurológicas e químicas claras para os problemas mentais e dizia aguardar com ansiedade explicações “testáveis” -- passíveis de verificação por qualquer um em laboratório -- e físicas para esses fenômenos. Em vez disso, as pessoas endeusaram complexos de castração e de Édipo, id, ego e superego, de forma cada vez mais dogmática, até que boa parte da psicanálise virou exibicionismo literário (não é à toa que o último reduto freudiano são os departamentos de literatura das universidades). Mas, se Freud não explica quase nada, Darwin explica.

É o objetivo deste escriba mostrar, nos seguintes parágrafos, qual o grande acerto de Freud (sim, ele o teve, e foi importantíssimo) e, principalmente, contar como a combinação de psicologia evolutiva e neurociência reforma um bocado, e muitas vezes pode demolir, as idéias freudianas sobre sexualidade, sonhos e inconsciente. É um daqueles casos clássicos em que nem a hipótese mais elegante resiste a um aglomerado de fatozinhos desagradáveis. Vamos lá?

Inconsciente, inconsciente, inconsciente
Ao barbudo o que é do barbudo: Freud acertou em cheio ao insistir na idéia de que a imensa maioria dos nossos processos mentais se dá em nível inconsciente. Em certo sentido, isso vale até pra ações conscientes. Sabe-se, entre outras coisas, que os impulsos neuronais ligados à tomada de uma decisão pelo cérebro podem ser detectados ANTES da consciência dessa decisão (o que, para alguns, coloca em xeque até a noção de livre-arbítrio, mas essa é uma outra história). Sim, o inconsciente é o senhor da vida mental – coisa, aliás, que outros pensadores contemporâneos de Freud também diziam; ele não inventou a idéia.

O xis da questão é o porquê disso, e é justo em seu maior triunfo que o edifício freudiano começa a esboroar. O grosso do nosso funcionamento cerebral não é inconsciente porque escondemos de nós mesmos o lado negro de nosso ser, como argumentava Freud: é inconsciente porque daria trabalho demais e seria perigoso demais se não fosse.

Deixemos a coisa um pouco mais clara. Todos sabemos como é desconfortável dirigir um carro ou andar de bicicleta pela primeira vez, porque cada ação precisa ser executada de forma deliberada e consciente: pensar para dirigir só atrapalha. Uma vez que os mecanismos de guiar são internalizados, passando para a nossa memória implícita (diferente da explícita, aquela que a gente usa para guardar um número de telefone), tudo fica mais fácil – e mais seguro para motorista e passageiros.

O mesmo vale para uma série de funções do sistema nervoso, desde as mais básicas, que mantêm funcionando nossa respiração, até as reações emocionais mais diversas ou mesmo os julgamentos morais, que parecem ter uma base emocional muito forte, passando por reconhecimento de rostos e palavras, decisões sobre quem é ou não é atraente etc. É muito difícil, se não impossível, encontrar uma base racional consciente para todas essas coisas – em parte porque muitas delas são importantes demais para ser deixadas à mercê de um raciocínio lerdo. Saber distinguir entre um predador e um parceiro em potencial é um caso de vida ou morte – eis porque o controle é alegremente transferido ao inconsciente. “De pensar morreu um burro”, dizem por aí – aliás, morreu sem deixar descendentes, o que explica, em parte, porque a seleção natural favorece as espécies que não pensam demais para tomar decisões de vida e morte.

E é claro que, numa perspectiva evolutiva mais ampla, o próprio processamento mental de alto nível que nós chamamos de “consciência” é uma invenção relativamente recente, talvez privilégio de poucos mamíferos altamente curiosos e sociais, como grandes macacos, cetáceos e elefantes. O próprio peso da história do nosso sistema nervoso tende a “arrastar” grande número de funções para debaixo das asas do inconsciente.

A interpretação dos sonhos
A coisa fica ainda mais feia para o lado de Freud quando se leva em conta outra de suas idéias cruciais – a de que o conteúdo dos sonhos é uma forma de realização de desejos ocultos, que ocorre num momento de “guarda baixa” do superego (o conjunto de controles sociais e morais que faz as pessoas se comportarem de modo “aceitável”) diante do id (nosso lado instintivo e primitivo). Freud dizia, entre outras coisas, que sonhos no qual você voa são, na verdade, sonhos sobre sexo. (Como perguntou um personagem da série de quadrinhos “Sandman”: “E sonhos sobre sexo querem dizer o quê, então?”.)

O guru austríaco talvez ficasse meio cabreiro ao saber que os animais, essas criaturas proverbialmente sem superego, também sonham adoidado. Os mesmos padrões de atividade cerebral e de REM (movimento rápido dos olhos, na sigla em inglês) que caracterizam o sonhar humano também estão presentes em todas as espécies de mamíferos já estudadas, e até em aves. Os neurobiólogos ainda estão tentando entender em detalhes o que exatamente acontece durante os sonhos, mas há boas indicações de a coisa não tenha nada a ver com desejos reprimidos e tudo a ver com... seu cérebro desfragmentando.

Para quem não conhece a palavra, desfragmentar é o que o seu computador faz quando coloca os arquivos em sua memória numa ordem mais otimizada. Da mesma maneira, os sonhos parecem ser um subproduto aleatório do processo de consolidação e armazenamento das memórias que obtivemos durante o dia. Com isso, é inevitável que alguns aspectos da vida diária – inclusive as coisas pelas quais somos obcecados – acabem parando nos sonhos, mas procurar sentidos ocultos neles provavelmente é tanta perda de tempo quanto querer achar uma mensagem sobre o Apocalipse na página de teste da sua impressora multifuncional. Realidade 2, Freud 0.

Complexo de quê mesmo?
Nosso último caso de estudo, e talvez o mais complexo e interessante, tem a ver com as populares idéias de Freud sobre o desejo sexual infantil pelos pais (chamado de complexo de Édipo para os meninos e de complexo de Electra para as meninas) e os estágios de desenvolvimento na infância. Estudos em diversas culturas e regiões do mundo mostram que, se tivesse se permitido ser um pouco mais sofisticado e menos fissurado em mitologia grega, Freud teria acertado em cheio. Nenhuma pessoa normal, em nenhuma fase da vida, tem atração sexual pelos pais: nós só usamos nossos genitores como um modelo geral do que é atraente em outras pessoas.

Poucas coisas fazem mais sentido biológico do que a aversão quase universal ao incesto; até os grandes macacos evitam suas parentas mais próximas na hora de se acasalar. (Ao contrário do que dizia o psicanalista, que formulou a tese de que a “horda primordial” humana era dominada por um paizão incestuoso. Viagem pura.) Tampouco há qualquer registro de desejo sexual real de crianças humanas por seus pais. Afinal de contas, acasalar-se com parentes tão próximos, que compartilham conosco 50% dos nossos genes, equivale a concentrar grande quantidade de material genético nocivo nos descendentes e ter filhos com problemas sérios de saúde, se não inviáveis.

O fenômeno é tão importante que vale até para pais e filhos (ou irmãos e irmãs) adotivos, ou mesmo para crianças criadas juntas de forma coletiva em determinadas organizações sociais. No entanto, e aí é que está o pulo-do-gato, é estatisticamente muito provável que as pessoas se sintam atraídas por pessoas fracamente parecidas com seus pais e consigo mesmas.

A semelhança, embora pequena, é significativa, e inclui até detalhes que nos soariam absolutamente irrelevantes (circunferência do dedo anular, por exemplo – é sério!). É fácil de descobrir essa correlação analisando grandes grupos de casais. O que parece estar em jogo aí não é um desejo de consumar a sua tara de Édipo impenitente, mas sim a necessidade de equilibrar diferença e semelhança – é bom ter como parceiro alguém que não seja seu clone, mas que ao mesmo tempo mantenha algum grau de compatibilidade genética com você.

Princípio da realidade
O veredicto final, depois desses exemplos, chega a ser óbvio, mas talvez muita gente ainda precise ouvi-lo. Esquecemos com freqüência que, apesar de todo o seu brilhantismo literário, Freud realizou suas “descobertas” sobre a psiquê humana com técnicas questionáveis e pouca ou nenhuma confirmação experimental. Psicanálise funciona? Sim, mas placebo também. Nenhum edifício teórico, por mais sedutor que seja, pode ficar de pé diante do que os dados da natureza mostram.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

sidarta ribeiro


“O sonho é uma simulação do futuro. Sempre que tenho uma situação de pressão, presto atenção aos sonhos e tenho boas respostas.” O parágrafo saiu da boca de um dos mais importantes neurocientistas do mundo. Bem — não seria mesmo um dos melhores se fosse um cara comum. A começar pelo nome, tirado do clássico de Herman Hesse. O romance que conta a trajetória de um inquieto brâmane, xará de Sidarta Gautama, o Buda, em busca da iluminação, era um dos favoritos dos pais, um casal de taquígrafos que transcrevia discursos políticos no Congresso, em Brasília. 
Quando se descobre que a principal diversão de Sidarta Tollendal Gomes Ribeiro, 35, é a capoeira, aí é que ele não se encaixa mesmo como um cientista padrão."Capoeira é filosofia de vida: saber cair, ser mandigueiro”, descreve. O candango chegou aos EUA depois do mestrado em biofísica, no Rio de Janeiro, para estudar neurociência na Universidade Rockefeller, em NY. 
Pouco depois, lançou um livro de contos,Entendendo as Coisas (L&PM, 1998), e levou suas mandingas para a Carolina do Norte, em Durham, onde fica a Universidade Duke. Atraiu-o o famoso laboratório dirigido pelo paulistano Miguel Nicolelis, outro cérebro abençoado e expatriado. “Achava que era megalomaníaco até conhecer o Miguel. Ele é o Pelé da ciência brasileira”, elogia. Após publicar vários trabalhos ao lado do camisa 10 — no mais célebre, provaram que a memória é consolidada durante o sono profundo —, Sidarta notou que seguiam direções diversas. Ao amostrar simultaneamente sinais elétricos de centenas de neurônios de ratos, e com os sinais controlar movimentos de braços robóticos, Nicolelis atingiu a pole position da neuroprotética. 
Já o interesse de nosso capoeirista reside no processo de formação do sonho e da memória, foco do doutorado com o também brasileiro Claudio Mello, da Universidade do Oregon. Para impulsionar as pesquisas, o trio de exilados, figurinhas carimbadas em respeitadas revistas científicas como Nature, Science e PloS Biology, teve a onírica idéia de criar um instituto de neurobiologia... no Brasil. 
Assim nasceu o ambicioso Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Orçado em 20 milhões de dólares, o dobro do custo da patriotada espacial e inútil que levou nosso primeiro astronauta ao espaço — mas com perspectivas muito superiores. Exemplo: saber como funciona o cérebro durante o sonho lúcido. Construir interfaces cérebro-máquina capazes até de controlar funções do corpo pela Internet. Ou, ainda, simplesmente, desvendar a língua falada por macacos.

Interessado em envolver os locais no NatalNeuro — que deverá abrigar escola para 250 crianças e clínica de saúde mental —, o neurobiólogo caçou alunos numa favela para descobrir que ensinar algo para crianças carentes é muito mais complexo. “Resolvi dar aula de capoeira, mas vi que antes tinha de ensiná-los a não xingar... 
Mas estou certo de que da capoeira vão aos computadores”, acredita o entusiasmado Sidarta, que teve seu sonho postergado por atrasos nos investimentos e em sucessivos entraves burocráticos. Mas fique frio: agnóstico, ele detesta papo cabeça. E adora dormir — religiosamente, oito horas por dia.
Em seu celebrado artigo na PloS Biology, você afirma que o sono está para a memória como a digestão para o alimento. Quem dorme mais aprende mais? Sem dúvida. Quanto melhor a qualidade do sono, melhor a memória. Temos três grandes estados de consciência: a vigília, o sono profundo, que é o sono de ondas lentas, e o sono REM [de “rapid eye movement”, estágio do sono em que ocorrem os sonhos]. Quem tem problema de apnéia noturna, por exemplo, tem problemas de memorização, pois dificilmente alcança o sono REM. Sonho é um processo ativo. Durante o sono surgem idéias importantes do dia-a-dia. Minha pesquisa acontece na confluência entre sonho, sono, memória e aprendizagem. A gente perdeu na cultura ocidental a tecnologia para o próprio corpo: o corpo é estranho no Ocidente. Entre os integrantes da tribo Senoi, na Malásia, havia o costume de todo dia as crianças relatarem seus sonhos para os pais. Os pais lhes davam conselhos, pois o controle do sonho seria muito importante para a pessoa e a coletividade. Essa psicanálise matutina era seguida pelos adultos, que faziam simulações de futuros possíveis para toda a tribo.

Borges escreveu que o sonho é a primeira ficção do homem. O que veio primeiro, o sonho ou a memória? O sonho é uma simulação do futuro. Isso não é evidente no dia-a-dia, quando as coisas são imprevisíveis, mas quando você tem grandes problemas isso se evidencia nos sonhos. Aí cabe Freud, a pulsão de satisfazer os desejos. Qualquer animal sonha com locais onde tem comida, fêmeas, ou machos... Essa é a função primordial do sonho. No mundo cão, você tem que predar, acasalar e não morrer. Gente que está na guerra sonha que está na guerra. Sonhos e pesadelos são coisas concretas quando os problemas são concretos. Se temos sonhos abstratos é porque não temos problemas sérios, e sim mil problemas mais ou menos sérios. Os pequenos problemas do cotidiano irão ressurgir nos sonhos, que servem para processar memória.
Como se prova que o sonho consolida a memória? A função original do sono, desde os répteis, é de time-out. Aprendeu, desliga, não tem mais interferência sensorial. A memória é como um tanque de areia onde a água traça caminhos por erosão. O cérebro de uma criança é a caixa de areia intacta; o cérebro do velho é um Grand Canyon. O sono permite que as coisas mais importantes sejam fixadas, fazendo com que a memória reverbere no cérebro por horas. Os processos moleculares que acontecem durante a vigília se repetem durante o sono. Parte do meu trabalho é desvendar o sono de ondas lentas, que é o sono profundo, quando não se sonha, quando os genes não são ligados, mas durante o qual as memórias ficam ecoando.
Isso durante o sono de ondas lentas... E durante o sono REM, o que acontece? Nesse sono, os genes são ligados e desligados. Essa ativação gênica é muito rápida, é como se fosse “a hora da verdade” para aquelas memórias em processo de sedimentação. Isso acontece em poucos segundos. Já no resto do sono REM, que dura muitos minutos, nossa impressão é que — note que isso ainda está sendo pesquisado —, depois que o sono de ondas lentas bate o martelo para decidir quais memórias serão estocadas no disco rígido, ocorre um processo de reverberação com algum grau de caos, de desorganização. Algumas coisas se aprendem por repetição, outras por insight, isto é, por reestruturação de idéias preexistentes. Não há idéias novas, e sim recombinações. Minha pesquisa sugere que durante a fase do sono REM as idéias se misturam, você “viaja” para gerar insights. Essas fragmentações e condensações, como Freud disse, devem servir para chacoalhar idéias velhas e transformá-las em novas.
Você fala muito de Freud, algo meio estranho para um biólogo... Sou um neurofreudiano, digamos. Nunca fiz a tentativa explícita de corroborar Freud biologicamente, mas os resultados da minha pesquisa deságuam nele. Ele disse que parte dos sonhos são memórias do dia anterior, os “restos diurnos”. Estava certo!

Mas é possível comprovar a psicanálise com a neurociência? Não posso tomar como 100% verdade o que Freud e Jung produziram, mas é possível observar os mecanismos da repressão ativa de memórias desagradáveis, um conceito freudiano clássico. Dá para apontar áreas frontais do cérebro com atividade elétrica quando ocorre a repressão, e outras áreas quando o conteúdo reprimidoressurge. A psicanálise se afastou da ciência e vice-versa — não creio que a importância de Freud seja a clínica. Era um grande neurocientista, sua contribuição é para o entendimento da psique. Pena que ele tenha ido à boca do cachorro nos anos 50... Se Freud tivesse acesso a uma máquina de ressonância magnética, hoje, não ia ter pra ninguém...

Há pessoas que se lembram de seus sonhos com exatidão e outras que mal se lembram da última vez que sonharam. Como se explica? Todos os adultos têm sono REM, e se você acordar alguém durante esse sono ele vai dizer o que estava sonhando. Lembrar-se do sonho é outra história. Sugiro que todos mantenham um diário de sonhos, o sonhário. Na primeira manhã, você não lembra, lembra só de uma frase. Se faz uma auto-sugestão antes de dormir, em duas semanas sai de uma frase para muitas páginas. Tem que criar condições para que a memória se forme, para reter a experiência.
E o sonho lúcido, realmente existe? É uma coisa que a ciência mal começou a estudar. Muita gente conhece, pouca gente controla. Durante o sono REM, as áreas frontais são desativadas, é como se o ego e o superego fossem desligados. O que se ativa são as áreas intermediárias do cérebro. Em geral, o sonho não é tão vívido quanto a realidade, não se age: as coisas acontecem com você. Já no sonho lúcido, você age — é um supersono REM em que o sonhador adquire controle efetivo do sonho. Trabalho com a hipótese de que o pré-frontal está ativado durante o sonho lúcido: você tem sudorese maior, o coração bate mais rápido, atinge um estado borderline — e, se ativar demais, acorda. O sonho lúcido acontece durante a soneca de meio de tarde ou de manhã cedo, quando o corpo descansou e você está próximo da vigília. Há aí um potencial cognitivo inexplorado, embrião de uma nova forma de consciência. Poderíamos aprender coisas incríveis nesse estado, como no filme Matrix — e mais legal do que um espaço virtual de computador é o que dá pra fazer com seu próprio corpo. É um trabalho inovador, e uma das linhas que quero pesquisar no Brasil.
Do sonho à realidade: você estava tão bem num laboratório de ponta nos EUA... por que voltar ao Brasil?É roubada mesmo! Há meses que faço coisas que não têm nada a ver com minha profissão. Dez anos lá e você pensa que tudo é fácil, já aqui a burocracia é gigante. Foi um risco calculado, porque não queria ficar lá só fazendo ciência e também não queria voltar ao Brasil pra dar aula em universidade. De que adianta ser capaz de ir à Lua
e moleques aqui terem 20 bichos-de-pé por pé?

Tem algum sonho para o Brasil? Acho que a gente só pode se salvar se virar uma superpotência. Senão, a gente vai simplesmente acabar. Podemos virar uma grande Bolívia ou tomar vergonha na cara agora. Temos um povo criativo e estamos comendo mosca. No Brasil reinventamos a roda, corremos atrás do que já foi feito — caso do Projeto Genoma. Tem que fazer o contrário, ser líder em campos virgens. Temos uma estrutura porreta nesse mapeamento genético, mas chega! Se a gente não investir em célula-tronco, nanotecnologia, interface cérebro-máquina, neurociência, se não tivermos programadores, não soubermos lançar satélite, não pesquisarmos o cérebro, estamos roubados. O Brasil precisa pensar em ser o melhor do mundo em algo muito específico. É melhor correr pensando em ser o primeiro do que correr para não ser o último.

Então só a ciência salva? Caminhamos para uma grande crise ecológica sem precedentes, e só daqui a 30 anos consertaremos o estrago. Se daqui a 50 anos não tiver água, teremos controle da Amazônia? As pessoas aqui não têm ambição, acham que têm que bater o ponto e ir pra casa. E a corrupção está no genoma do brasileiro. Tem que transformar a educação agora, para daqui a 20 anos mudar esse comportamento. A ciência pode revolucionar se construir para o avanço tecnológico, meritocrático e lúdico. Se for só l’argent, vai dar errado! Gente é para brilhar, mas aqui se acha que é só para sobreviver. Temos que trabalhar com as crianças. Elas devem sonhar, ter ambições altas. Se elas forem diferentes, vamos dar certo.. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

O QUE É NEURO-PSICANÁLISE

Yusaku Soussumi

 

O objetivo deste trabalho é tratar da neuro-psicanálise, um novo método científico que consiste em combinar dois métodos já existentes, ou seja, um método que busca integrar, sobre uma base empírica, a psicanálise e a neurociência.

O início de movimentos, ainda tímidos, por parte de psicanalistas que ousavam contrariar a orientação das instituições psicanalíticas de buscar estudar as possíveis correlações entre os conceitos, os achados da psicanálise com as descobertas da neurociência, ocorreu na Década do Cérebro. Data de 1994 a fundação do grupo de estudos de neurociência e psicanálise no Instituto de Psicanálise de Nova York, quando os psicanalistas, encabeçados por Arnold Pfefer, buscaram em neurocientistas da Universidade de Columbia como James Schwartz, os conhecimentos neurocientíficos que pudessem correlacionar com seus conhecimentos psicanalíticos. Iniciava-se um intercâmbio de informações e conhecimentos entre psicanalistas e neurocientistas. À essa época, em diversos pontos do mundo como em Frankfurt, Viena, Londres, Bruxelas e São Paulo, existiam psicanalistas que sozinhos ou em grupos buscavam estudar as possíveis correlações entre as duas ciências. Iniciei na década de 1980 investigações neste campo tendo tido, somente em 1994, a possibilidade de apresentar um trabalho sobre o assunto num evento psicanalítico, a Bienal da Psicanálise de 1994. Em 1996, Mark Solms, psicanalista inglês com formação em neurociência, que vinha trabalhando em Londres e publicando trabalhos sobre o assunto desde a década de 1980, foi convidado pelo Instituto de Psicanálise de Nova York para coordenar o grupo de estudos de neuro-psicanálise. Com o aumento de psicanalistas e de neurocientistas interessados nos estudos das correlações das duas disciplinas que beneficiavam as duas entre si, resolveu-se, sob a coordenação de Arnold Pfeffer e Mark Solms, fundar uma sociedade que congregasse esses psicanalistas, neurocientistas, solitários ou organizados em grupos, e que pudesse ser um pólo de orientação, atualização e de trocas. Assim, em julho de 2000, em Londres, durante a realização do I Congresso Internacional de Neuro-Psicanálise, um comitê fundador que foi constituído com as lideranças de diversos pontos do planeta, fundou a Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise. Fui o representante brasileiro no comitê fundador, criando o Centro de Estudos e Investigação em Neuro-Psicanálise de São Paulo que integrou o conjunto de grupos pelo mundo que compunha as bases da nova Sociedade.

Para compreender a proposta metodológica da neuro-psicanálise é interessante esclarecer as razões pelas quais Freud, sendo neurologista, criou a psicanálise que, em essência, é um método psicológico para dar significados aos processos mentais sem, no entanto, perder o vínculo com a neurologia, e sem perder a esperança de que um dia a psicanálise voltaria a se unir à neurologia, quando esta tivesse alcançado um grau de desenvolvimento e oferecesse conhecimentos que faltavam naquela época.

No tempo de Freud, a neurologia ainda era uma disciplina relativamente nova, e tinha incorporado da medicina interna o método anátomo-clínico, que consistia nos levantamentos dos sinais e sintomas clínicos das doenças para buscar a confirmação anátomo-patológica nas autópsias. Isto queria dizer que o clínico fazia as hipóteses diagnósticas das doenças através dos sinais e sintomas, e só tinha a comprovação quando o paciente era submetido à autópsia. Com o decorrer do tempo, em face das experiências anátomo-clínicas, os clínicos através dos sinais e sintomas inferiam as lesões anatômicas das doenças. A escola germânica privilegiava, acima de tudo, os achados anátomo-patológicos, e assim os sinais e sintomas não explicados pelas lesões anatômicas eram desconsiderados. Por esta época, os neurologistas estavam às voltas com algumas doenças como histeria, neurastenias que, apesar da exuberância dos sintomas – por exemplo, paralisias de membros – os patologistas nada encontravam nas autópsias para justificá-las. Trabalhando neste método, Freud se deu conta de suas limitações. A escola francesa, tendo Charcot como figura central, atraiu a atenção de Freud, que foi fazer um estágio com ele, em1885-86, para tomar contato com o que também era método anátomo-clínico, mas que privilegiava os sinais e sintomas, obtidos na observação meticulosa. Ou seja, estes não eram rejeitados, mesmo que não se encontrassem os substratos anatômicos na autópsia. Esta postura de Charcot teve uma influência marcante em Freud, que passou a praticar essa modalidade de método clínico quando retornou a Viena. Charcot tinha uma hipótese de que as lesões não surgiam nas autópsias porque eram de natureza fisiológica, e de origem hereditária, e que eram micropatologias que o desenvolvimento da técnica no futuro iria evidenciar.

Com a experiência prática, e sob a influência do neurologista inglês Hughlings Jackson, Freud começou a se dar conta de que essas manifestações não apareciam nas autópsias por serem fenômenos de natureza psicológica e, por outro lado, não se encerravam em localizações restritas em centros no cérebro. A época marcava o auge do localizacionismo em face dos achados de Broca e Wernicke. Diferentemente do aceito, para Freud as funções ocorriam não em áreas localizadas, mas na interação dinâmica de diversas áreas que correspondiam a funções complexas. Freud deu-se conta desses aspectos ao estudar a afasia e as perturbações de movimentos voluntários e não funções psicológicas.

Na medida que avançava nas observações da histeria e outros quadros mentais, mais fortalecia a convicção de que, na realidade, se tratavam de questões de funções de natureza psicológicas, que ocorriam na dinâmica de interações de diversas áreas cerebrais, que nunca seriam detectadas pela anatomia patológica. Em 1895, Freud fez com o Projeto para uma psicologia científica, sua última tentativa de construir um esquema dinâmico de funcionamento neurológico, com elementos que eram produtos de suas conjecturas, imaginações, pois as concepções neurológicas vigentes não tinham alcançado um desenvolvimento necessário para ancorar suas hipóteses funcionais. Por essa época, Freud se dava conta de que podia estudar as funções psíquicas pela observação clínica acurada, sem conjecturas e imaginações, buscando na dinâmica psíquica em si a explicação que a dinâmica neurológica não podia oferecer, mas deveria existir e seria conhecida com o desenvolvimento da neurobiologia. Aí surgiu a psicanálise com a sua metapsicologia.

Hoje, a tendência natural tanto dos neurocientistas como dos psicanalistas, no primeiro momento, é buscar uma correlação isomórfica entre os conceitos psicanalíticos e neurocientíficos, o que causa uma simplificação errônea, que não leva em conta as características das duas ciências.

A partir de 1939, principalmente com o trabalho de Alexander R. Luria, desenvolveu-se dentro do campo da neurociência do comportamento, a neuropsicologia dinâmica, cujos princípios se aproximam aos da psicanálise por aceitar que as funções da fisiologia cerebral ocorrem na interação dinâmica de diversas áreas espalhadas pelo cérebro, e não resultante de uma localização num centro. Nestes termos, podemos afirmar que a psicanálise se comporta como uma neuropsicologia.

Luria quando escreveu seu último livro em 1976, parece que tinha esgotado os principais assuntos cognitivos, e se propunha a entrar num campo não abrangido pelo cognitivismo: motivação, emoções profundas e personalidade. Ele faleceu antes de iniciar seu projeto.

Freud descobriu que os conteúdos subjetivos da vida mental não são facilmente acessíveis à investigação científica. Forças poderosas trabalham para se oporem às tentativas de investigação de conteúdos privados da mente individual. Freud classificou estas forças – que se expressam clinicamente como vergonha, culpa, ansiedade e outros – sob o nome de "resistências". Essas dificuldades ocorrem pelo fato de que as determinantes causais inferidas dos dados observacionais primários (acontecimentos mentais inconscientes que subjazem os processos de pensamento conscientes) não são conscientes por definição. Ele experimentou várias técnicas para vencer tais resistências (por exemplo: hipnotismo e técnica da pressão) e, com base nessas experiências, gradualmente desenvolveu a técnica psicanalítica definitiva da associação livre.

Tanto Freud como Luria sempre insistiram que para descobrir a organização neurológica do aparelho mental humano como compreendemos na psicanálise é necessário, em primeiro lugar, dissecar a estrutura interna psicológica das várias mudanças na personalidade, na motivação e na emoção complexa. Assim, os múltiplos fatores subjacentes produzindo esses sintomas e síndromes podem ser identificados, e cada um correlacionado com sua "cena de ação" neuro-anatômica.

Entretanto, devido às forças de resistência descritas, esses fatores não podem ser revelados pelas técnicas neuropsicológicas convencionais. Os testes psicométricos e técnicas de comportamento básicos, que os neuropsicólogos usam para acessar o estado mental dos pacientes neurológicos, foram destinados para a investigação das desordens das funções cognitivas de superfície. Para que possamos revelar a estrutura psicológica subjacente, profunda, das desordens da personalidade, motivação e emoção complexa que aflige o paciente neurológico, portanto, a técnica da associação livre deve ser introduzida dentro do método neuropsicológico de Luria.

Este tem sido o método neuro-psicanalítico por excelência, que evita as correlações isomórficas da psicanálise com a neurociência, e evita o reducionismo que leva à anulação do que é fundamental no método psicanalítico e do significado mais profundo de seus conceitos.

O que tem sido recomendado, e que se acredita proverá um pilar para uma consistente integração da psicanálise e neurociência, é uma plena investigação psicanalítica de pacientes com lesões neurológicas focais. Em outras palavras, o que se recomenda é o mapeamento da organização neurológica do processo mental humano que a psicanálise revelou, usando a versão modificada do método de Luria da análise da síndrome, pelo estudo da estrutura profunda das mudanças mentais nos pacientes neurológicos que podem ser discernidos dentro do setting psicanalítico.

Desde que as investigações psicanalíticas válidas só podem ser conduzidas no contexto do tratamento psicanalítico, o método investigatório que se recomenda tem um potencial de benefício secundário. Ele permite que se veja se e em que extensão o tratamento psicanalítico pode contribuir para a reabilitação de várias desordens de personalidade, motivação e emoção, que estão associados com o dano focal neurológico.

Os trabalhos dentro dessa metodologia neuro-psicanalítica vêm sendo realizados no campo das memórias, das emoções, dos sistemas motivacionais, do inconsciente trazendo contribuições valiosas para as duas ciências. Um exemplo onde as contribuições psicanalíticas têm sido muito ricas é no campo dos estudos da regulação afetiva, orientando as pesquisas da neurociência do desenvolvimento e psicologia do desenvolvimento, campo em que as chamadas relações de objetos, tão estudados por psicanalistas como Melanie Klein, Fairban e Mahler têm contribuído de forma inegável.

É no campo dos lesionados cerebrais onde mais se pode perceber a correlação e a complementação das duas disciplinas. Assim, por exemplo, os estudos dos estados conhecidos como de confabulação nos pacientes com lesão bilateral da região ventro medial no prefrontal ou na síndrome de Korsakof, têm permitido a investigação psicanalítica que se realiza além das investigações neuropsicológicas. Pelo método psicanalítico, têm-se podido evidenciar nessas manifestações confabulatórias as características especiais do sistema inconsciente em plena expressão, como trazidos por Freud, quais sejam: 1. a tolerância da contradição mútua; 2. ausência do tempo; 3. a substituição da realidade externa pela realidade psíquica; 4. o processo primário (mobilidade da catexia).

Nas chamadas síndromes do hemisfério cerebral direito, que ocorrem nas lesões da região peri-silviana, geralmente por problemas de irrigação da artéria cerebral medial que provoca paralisia no lado esquerdo do corpo, ocorrem alguns sintomas exuberantes como: 1. anosognosia (inconsciência do déficit); 2. anosodiaforia (aceitação intelectual com negação emocional); 3. negligência (ignorância do lado esquerdo do espaço); 4. misoplegia (obsessividade e ódio pela lesão) e apraxia espacial (dificuldade de atuar o espaço) etc. Esse quadro, cujos sintomas são explicados coerentemente por teorias neuropsicológicas relacionadas com as perdas das funções do hemisfério direito e permanência das funções do hemisfério esquerdo, oferecem nas situações de investigações psicanalíticas a possibilidade de se descobrir motivações inconscientes, não acessíveis aos métodos neuropsicológicos comuns, que levam os indivíduos às manifestações de tais sintomas de negação da realidade dolorosa, sugerido que o hemisfério direito ausente tem a função psíquica de realizar o luto pelas perdas, superar a melancolia, e desenvolver a capacidade relacional do indivíduo dos estados narcísicos para relações de objeto, propiciando, conseqüentemente, a ampliação de suas relações espaciais.

 

Yusaku Soussumi é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; membro fundador da Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise; e presidente do Centro de Estudos de Neuro-Psicanálise de São Paulo.